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Acordo, transferência, domínio e bloqueio

  • 5 de fev.
  • 5 min de leitura

Lino Resende


A ascensão recente da China costuma ser descrita como um “milagre econômico”. A palavra impressiona, mas explica pouco. O que ocorreu ao longo das últimas quatro décadas foi menos um golpe de sorte e mais a execução disciplinada de uma estratégia de longo prazo. O ensaio O ciclo: como os lucros americanos construíram o poder chinês, do professor Howard Yu — original em inglês — ajuda a organizar esse processo em quatro movimentos — acordo, transferência, domínio e bloqueio — que iluminam como a China deixou a periferia industrial para se tornar um dos centros da economia global. Nada disso foi espontâneo. E tampouco neutro.

O primeiro movimento foi o Acordo. A partir dos anos 1980, e de forma decisiva após a entrada na Organização Mundial do Comércio, em 2001, a China apresentou ao mundo uma proposta direta. Oferecia mão de obra abundante e barata, infraestrutura industrial em acelerada expansão e um Estado disposto a sustentar produção e exportações em larga escala. Em troca, empresas estrangeiras obtinham custos menores, cadeias produtivas eficientes e acesso a um mercado interno de dimensões inéditas.


Durante anos, esse arranjo foi tratado como um jogo em que todos ganhavam. Multinacionais ampliaram margens, consumidores pagaram menos e a inflação global permaneceu contida. Parecia um equilíbrio racional. O preço estratégico embutido nessa escolha raramente foi discutido. Quando apareceu, foi tratado como um efeito colateral distante, não como uma variável central.


Desde o início, porém, o acordo foi mais do que comercial. Ele envolvia contrapartidas claras, ainda que nem sempre explicitadas. Joint ventures obrigatórias, exigências de conteúdo local, compartilhamento de projetos, abertura de processos produtivos e treinamento de equipes chinesas faziam parte do pacote. Era o custo de acesso. Esse desenho abriu caminho para o segundo movimento: a transferência.


Na maioria dos casos, não houve apropriação direta das tecnologias. O processo foi mais gradual e mais eficaz. Conhecimento passou a ser transferido como condição para operar no mercado chinês. Engenheiros locais aprenderam a fabricar turbinas, trens de alta velocidade, equipamentos de telecomunicações, componentes eletrônicos e, mais recentemente, semicondutores. O aprendizado ocorreu dentro das fábricas, em centros de pesquisa conjuntos e ao longo de cadeias inteiras de suprimento.


Aqui está um ponto-chave. Ao contrário de outros países que se limitaram à montagem, a China tratou a transferência como política de Estado. Investiu pesado em educação técnica, engenharia e ciência aplicada. Universidades passaram a responder a demandas industriais concretas. Empresas estatais e privadas absorveram tecnologia, adaptaram processos e, em muitos casos, avançaram além do que haviam aprendido. O governo coordenou o movimento, protegendo setores estratégicos da concorrência externa enquanto estimulava a competição interna. O resultado foi uma veloz escalada da complexidade industrial.


Com essa base consolidada, entrou em cena o terceiro movimento, que Howard Yu chama de gravity — aqui traduzido como domínio. Produzir na China deixou de ser apenas uma questão de custo. Tornou-se uma questão de eficiência. Fornecedores, matérias-primas, logística, financiamento, mão de obra qualificada e serviços especializados passaram a operar no mesmo espaço. Talentos migraram para onde estavam as oportunidades. Startups, centros de pesquisa e fabricantes se organizaram em ecossistemas densos, integrados e difíceis de replicar em outros países.


O efeito foi cumulativo. A China passou a ser o lugar onde tudo acontece mais rápido, em maior escala e com menos fricção. Para muitas empresas globais, sair do país passou a significar prazos mais longos, custos mais altos e perda de acesso a fornecedores críticos.


As consequências foram assimétricas. Enquanto o domínio se consolidava na China, a desindustrialização avançava em grande parte do Ocidente. Setores inteiros — de eletrônicos a insumos farmacêuticos — foram deslocados ou desapareceram. Apostou-se que serviços, design e inovação compensariam a perda da manufatura. Em parte, isso ocorreu. Mas a dependência estrutural do Ocidente em relação a China apenas aumentou.


O último estágio do ciclo é o bloqueio. Ele se torna visível quando crises expõem o grau de dependência do Ocidente acumulado ao longo de décadas. A pandemia de Covid-19 foi um desses momentos. Máscaras, medicamentos, equipamentos médicos, princípios ativos e chips estavam concentrados em poucos polos produtivos, muitos deles na China. O que parecia apenas eficiência revelou seu peso estratégico.


Disputas comerciais, sanções e tensões geopolíticas recentes reforçaram esse diagnóstico. O bloqueio não é apenas econômico, é político. Quem controla pontos críticos de produção, logística e tecnologia passa a exercer poder que vai além do mercado e impõe limites concretos aos demais.


Hoje, a China ocupa posições centrais em setores como painéis solares, baterias, terras raras, equipamentos de telecomunicações, transporte ferroviário, manufatura eletrônica e vários outros. Em alguns casos, responde por mais da metade da capacidade global. Em outros, é praticamente insubstituível no curto prazo. Isso não significa que dite sozinha as regras do mundo, mas torna inviável qualquer tentativa de reorganizar a economia global sem levá-la em conta.


A nova realidade no Ocidente levanta questões incômocas, sendo a primeira delas a neutralidade do comércio entre países. Durante décadas, prevaleceu a ideia que a integração econômica levaria automaticamente à convergência política e institucional. A experiência chinesa mostrou o contrário. É possível se integrar profundamente ao mercado global mantendo um modelo político centralizado e uma estratégia nacional clara.


A segunda questão é a perda de capacidade estatal. Muitos países abandonaram políticas industriais explícitas, confiando que o mercado faria as escolhas estratégicas de longo prazo. A China adotou outro caminho e combinou planejamento com coordenação e competição. Foi uma política nacional que levou a efeitos sociais e políticos internos. Se houve o crescimento da China, outras regiões industriais perderam empregos e relevância no mercado mundial e, mesmo, internamente. A mudança alimentou ressentimentos e gerou polarização e desconfiança em relação à globalização.


Ao mesmo tempo em que, do lado político, o Ocidente começou a mudar, os consumidores se acustumaram aos preços baixos proporcionados pela escola de produção e menores custos oferecidos pelos fabricantes chinesaes. Quem deixou de fabricar descobriu que tinha um grande problema, principalmente por não conseguir reverter a situação em curto prazo. Não é somente um desafio econômio, mas também político.


O ciclo descrito por Howard Yu não é exclusivo da China, mas a escala e a disciplina com que foi aplicado são raras. Ele mostra que, no século XXI, vantagem competitiva não nasce apenas de inovação pontual, mas da capacidade de organizar ecossistemas inteiros e torná-los indispensáveis. O debate global hoje gira em torno de reduzir riscos, diversificar cadeias produtivas e recuperar capacidades perdidas. Mas o ponto de partida é desigual. A Seriedade já está formada. Em muitos setores, o bloqueio é um fato.


A pergunta central não é se a China “venceu”, mas como o resto do mundo reagirá. O ciclo pode ser mitigado, interrompido ou até replicado. Ignorá-lo, como a história recente sugere, tem um custo alto — pago em dependência, vulnerabilidade e perda de autonomia.



Lino Resende é jornalista, escritor e mestre em HIstória Política pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes)

 
 
 

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