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Ancestralidade afro tomou conta do Sambão do Povo

  • 8 de fev.
  • 3 min de leitura

Marcelo Martins


A avenida, quando se abre, não é só asfalto. É terreiro, livro aberto, colo de vó contando história com o corpo inteiro. O desfile das escolas de samba capixabas tem sido assim. Um ritual de memória que dança, canta e ensina. Ano após ano, cresce não só em brilho e acabamento, mas em densidade de alma. E quando o espírito vem da ancestralidade, o samba ganha outra pulsação. Um gosto de gás da alegria que não é fuga, é afirmação civilizatória.


Veio a “Rosa de Ouro” trazendo Viriato, guerreiro negro humano, desses que a história oficial tentou apagar, mas o samba fez questão de gritar. Viriato nunca pediu licença, jamais abaixou a cabeça, pois libertou corpos, fundou quilombos, espalhou dignidade pelo norte do Espírito Santo/Bahia. Na cadência do surdo, ele voltou a caminhar entre nós (tem gente que jura que o viu em carne e osso na passarela, nas arquibancadas e camarotes), lembrando que liberdade não é conceito abstrato, mas é prática coletiva, é gesto corajoso, é povo em movimento.


A “Boa Vista” abriu outra porta do encantamento com o lendário João Bananeira. Que beleza de astúcia e poesia! Quando o mundo dizia “não pode” a negritude participar de cortejos cristãos, Bananeira respondeu com criatividade, riso e dança. Máscaras, saiotes de folhas de bananal, e pronto... O sagrado foi acessado pelo caminho da invenção popular.


Negros e pobres, de todas as origens, proibidos de festejar Nossa Senhora da Penha – minha madrinha padroeira, pois fui batizado lá no seu convento, em Vila Velha - encontraram na festa um jeito disfarçado de exercerem a fé com resistência. O samba contou isso com leveza, mas o recado veio firme, no tom apropriado, que tradição também se reinventa para sobreviver.


Aí a foi a vez da “Chegou o que Faltava”, lembrando que o Orí, a cabeça, é nossa guia. Um chamado simples e profundo porque não há espaço, na mente que se conhece, para o preconceitos. Só cabe paz, amor, honestidade e alegria. O desfile virou quase um conselho de vida, desses que a gente leva pra casa sem perceber, mas que ficam ecoando depois que a bateria silencia.


E, então, a avenida se curva em respeito com a “Unidos da Piedade”, minha preferida desde menino. A mais longeva não veio apenas desfilar, veio agradecer. Homenagear Edson Papo-Furado, nosso querido, é uma salva de palmas ao próprio samba capixaba, sua voz, persistência, malícia boa, fidelidade ao povo. Quase 90 anos de vida, Papo cantou e encantou décadas de entrega e o reconhecimento veio em boa hora.


Esses desfiles explicam nossas raízes porque não falam de passado morto. Falam de passado vivo, que pulsa no presente e aponta o “futuro ancestral”, como desvendam os historiadores.


A ancestralidade afro que atravessa a avenida não é só tema central, é recheada de fundamento antropológico. Está no ritmo, no corpo, na inteligência criativa, na alegria que resiste a tudo. Inclusive aos golpes contra a Democracia.


O carnaval capixaba, quando faz isso, não é espetáculo vazio, só de glamour. É aula sem quadro e giz, reza sem templo, história contada com brilho no olho. E a gente sai da avenida super diferente. Mais leve, inteiro, e, sobretudo, consciente de quem somos. Com aquele gás - o qual me referi no início - que sobe rápido, arrepia e deixa a vontade de viver mais um pouco melhor.


Parabéns aos amigos e amigas, passistas e bateristas, as velhas-guardas, além dos organizadores das agremiações nessa festa inigualável.


E que todas as Escolas de Samba que passaram no Sambão do Povo se sintam vencedoras pela beleza, garra, magia, arte e, principalmente, por nos lembrar que a história do Brasil e do meu querido Espírito Santo é outra totalmente reescrita, revisitada na avenida, com valor e o suor da verdade histórica!


Marcelo Martins é jornalista e cronista

 
 
 

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