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Esperança 26

  • 14 de jan.
  • 2 min de leitura

Kleber Frizzera


Todo objeto amado é o centro de um paraíso

Novalis


Em Sandman, uma novela em quadrinhos, criação de Neil Gaiman, Morpheus, um dos perpétuos, o rei e senhor dos sonhos, invade os infernos para recuperar o seu elmo que tinha sido roubado e é obrigado a participar de uma luta com um dos demônios.


Neste embate, alternadamente, cada um faz um lance, assumindo, uma forma defensiva ou ofensiva, um animal, um vírus, uma luta que o demônio tenta vencer, no final, assumindo a figura da besta do apocalipse, a besta do fim dos mundos e da humanidade.


Sandman ganha a disputa assumindo a forma da esperança, dizendo “que poder teria o inferno, se todos aqui presos fossem capazes de ter esperança, em sonhar com o Paraíso?

Todas a religiões monoteístas oferecem como recompensa, aos seus fiéis esperançosos, o acesso ao paraíso celestial, e para aqueles, culpados, encaminhados ao inferno, “Deixais toda esperança, vós que entrais”, anunciou Dante Alighieri.


Em tempos atuais, difíceis, quem sonha com o paraíso terrestre, quem ainda tem esperança de um mundo igualitário, que todos possam ter acesso ,às artes e `a cultura, quem ainda imagina que podemos salvar o planeta da destruição ambiental?


O inferno é o mundo que erguemos, um mundo de desigualdades e preconceitos, de ódios e violências, um mundo em extinção, um mundo onde as muralhas separam, cancelam proximidades e invalidam esperanças.


O inferno é o mundo da desesperança, do desalento, das vazias expectativas de dias melhores, que parece ocupar os pesadelos humanos, um inferno sem sonhos.

Mas que poder tem o inferno diante dos sonhos impossíveis, dos sonhos das crianças, dos sofredores, dos pecadores, das utopias dos jovens?


“Tudo será como agora- apenas um pouco diferente”, interpreta W. Benjamim a parábola do reino vindouro, a fala do rabino que disse para instaurar a paz “não é necessário destruir tudo e dar início a um mundo completamente novo”, mas basta deslocar “um só pouquinho essa taça, esse arbusto, aquela pedra, e do mesmo modo todas as coisas”.

Mas qual seria esta diferença, tão pequena, tão sutil, que os deslocamentos de simples objetos irá’ fazer outro mundo por vir, um tempo de reconciliação e paz?


Para Byung-Chul Han, neste reino vindouro, “o ser humano e a natureza se reconciliam”, poderão fazer uma república de seres vivos, do qual também devem fazem parte, como concidadãos “plantas, animais, pedras nuvens e estrelas”.


Este messianismo romântico, segundo ele, se opõe a uma profanação do real pelo mundo digital, informático, virtual, onde e quando tudo se torna calculável, medido em lucros e números, conclui, e assim, “habitam o ponto zero do sentido”.


Mas não haverá outras portas, no tempo que resta acessem `a esperança, flua a beleza e os gostos se satisfaçam nos efeitos mágicos e profundos significados da criação humana, que surpreendam os corpos, encantem os espíritos nos lugares onde os deuses e os homens deixaram a suas imprecisas marcas e empenhos?


Em silêncio, a contemplação e a espera admiram os voos anteriores, aplicam esperanças nos riscos invertidos da história, onde se estabeleceram, por instantes, as correspondências e as conexões, em infinitas aproximações com o universo.


Kleber Frizzera é arquiteto e presidente do Instituto Penedo


 
 
 

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