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Morrer com dignidade

  • 7 de jan.
  • 1 min de leitura

Marcelo Martins


O Brasil trata a morte como tabu e o sofrimento como obrigação moral. Discutimos o fim da vida em sussurros, como se a dor fosse virtude e a dignidade, pecado. Mas a pergunta é simples: por que alguém é obrigado a sofrer até o último segundo?

Defender a morte consentida e assistida não é promover a morte, mas respeitar a vontade de quem já não tem vida, apenas prolongamento artificial da dor. Países considerados modernos já permitem esse direito sob critérios médicos rigorosos. Não houve banalização da vida, houve humanidade.


Aqui no Brasil, seguimos presos a dogmas religiosos, ao medo jurídico e a uma cultura que transforma o fim da existência num processo caro, cruel e inútil. O corpo deixa de ser da pessoa e passa a pertencer ao Estado, à família ou à culpa coletiva.


Eu, por exemplo, detesto velório. Aquele teatro mórbido onde o principal interessado não está presente. E o enterro, além de ambientalmente absurdo, não tem sentido espiritual algum: não há ninguém ali. Acabou.


Quero ser cremado, já falei isso pra minha filha Ludmila Martins. E que minhas cinzas sejam lançadas na Baía de Vitória, onde vivi momentos de alegria onde nadei, mergulhei, naveguei. Olha que lindo. Simples, limpo, honesto.


A morte assistida não obriga ninguém a partir. Apenas impede que o Estado obrigue alguém a sofrer.


Viver com dignidade inclui morrer com dignidade.


O resto é hipocrisia religiosa.


Marcelo Martins é jornalista e cronista

 
 
 

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