top of page

A barbárie, a utopia e o voto

  • 28 de jun.
  • 5 min de leitura

Atualizado: há 5 dias

Roberto Junquilho


O relógio do celular marcava 23:14 de sábado, 27 de junho de 2026, quando li a postagem (veja abaixo) de Wilson Coelho, o artista, ativista de esquerda dos bons, sobre a experiência que acabara de ter, a confirmar o clima de ódio que varre o País - também o mundo. Mascarado pelo show capitalista da Copa do Mundo, a barbárie reforça a raiva contra os pobres, impede o livre pensar, a soberania individual, a democracia, e estimula o fanatismo, de uma forma especial o político e o religioso.


Em seu relato, Wilson diz: “Vim embora para casa e resolvi tomar uma saideira no bar da esquina. Ajeitei uma cadeira, sem mesa, e escorei a cerveja e o copo num murinho ao meu lado. Tinha um coroa sentado à mesa logo adiante, bem próximo de mim. Eu perguntei se eu fumasse, lhe incomodaria, no que ele respondeu que não, mas o que o incomodava era minha bolsa. Eu estou com uma bolsa onde está escrito "Lula 2026". Logo em seguida, ele piscou um olho para uma mulher que estava à sua frente e levantou a camisa mostrando que estava com uma pistola automática, pelo que sei, uma dessas de 9 tiros. Ela pegou o celular e fotografou ele se expondo e olhando para mim com um olhar de prepotência e desafio. Eu fiquei sem saber o que fazer e apenas disse que só os medrosos andam armados. Achei que ele ia retrucar e fiquei na expectativa, mas ele não falou mais nada, terminou de tomar sua cerveja e foi embora olhando para mim como se eu fosse um extraterrestre. Fico triste em saber que é esse o ambiente que estamos vivendo”.


Mais à frente, ele desabafa: “Saí da Casa Cultural 155 onde a maioria das muitas pessoas "felizes" que lá estavam não têm a mínima noção do que se passa no país. Artesanato e peças que acreditam "rebeldes" por terem frases feitas como se estivessem fora do mundo ou que um novo mundo fosse possível na medida em que pudessem se resolver numa ação catártica”.


O texto de Wilson não me faz entrar em nenhum processo de catarse, no sentido de purificação, de liberar emoções no modo individual, mas, de outro lado, reforça a certeza de que vivemos um clima de barbárie, decorrente da crise do capitalismo, que, para evitar a derrocada, destrói e degrada povos e nações. Um clima no qual se torna necessária a aglutinação de forças, de qualquer espécie, a fim de que o amor ao próximo possa fazer florescer sonhos e utopias como embriões de uma sociedade mais igualitária, solidária, inclusiva e acolhedora na qual o direito e a justiça se destinem a todos.


Esse cenário, utópico, é cheio de impossibilidades, manifestadas na tirania da informação e no engodo do marketing, dominado pelo andar de cima, a provocarem catarses que vão de encontro à própria existência humana, hoje extremamente fragilizada. Isso ocorre pela proliferação do poder bélico entre as potências mundiais ou por meio da aparentemente simples exibição de uma arma de fogo em local público; por discursos mal formulados nas casas legislativas, em igrejas e por leis que preservam privilégios de uma elite hipócrita e massacram o povão. Desinformado, essa camada aplaude os tiranos, embalados pelos algoritmos das big techs dominadas pelo grande capital, moldando mentes malignas e comportamentos desumanos.


Muitos são os que viveram a utopia, desde a antiguidade até hoje e outros que ainda a acalentam. Como não lembrar de Tiradentes, Zumbi dos Palmares, Maria Quitéria, dos assassinados no Araguaia e nos porões da ditadura de 64, os ativistas ainda na ativa na luta pela democracia, a solidariedade, a igualdade o acolhimento e o perdão; do povo cubano asfixiado pelo bloqueio criminoso dos Estados Unidos. O heróis são muitos, como os que enfrentam os patrões nas lutas sindicais, o Che, o congolês Patrice Lumumba, apagados numa história mal contada em narrativas escritas pelos poderosos.


No Brasil, o bolsonarismo, nos Estados Unidos, o trumpismo, é exemplo dessa política, que, na esteira do nazifascismo, buscam e exercem o poder com base em seus próprios interesses, sem qualquer projeto de país envolvendo a coletividade. A sustentar essa pirâmide, o tornar-se rico – ou mais rico, é o objetivo principal. Um quadro que remete a uma pergunta: Por que votar em Flávio Bolsonaro, um político, como o pai, sem nenhum projeto como deputado federal ou senador, a não ser empregar e homenagear milicianos integrantes do chamado Escritório do Crime, no Rio de Janeiro? Não há resposta aceitável.


Milton Santos, o grande pensador brasileiro, falecido em 2001, disse que “a política, por definição, é sempre ampla e supõe uma visão de conjunto. Ela apenas se realiza quando existe a consideração de tudo e de todos”. (“Por uma nova globalização”, editora Record).

A frase se encaixa no campo da utopia, horizonte buscado desde Platão, passando por Thomas More, entre vários outros, até Karl Marx, que, em O Capital, denuncia a desigualdade social movida pela injusta política capitalista dos meios de produção.


E não para só por aí. Para os fanáticos religiosos ou os que se deixam enganar com jargões como “Deus, Pátria Família, que deriva do fascismo italiano de Benito Mussolini e do integralismo de Plínio Salgado, marca da política do ódio, no Brasil e em outros países, vale alguns escritos da Bíblia: Atos de 2 a 44, diz que "Todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum”. Eles compartilhavam seus bens de forma radical. No versículo 45 diz que eles vendiam propriedades e repartiam o dinheiro de acordo com as necessidades de cada um”.


Em seus discursos, Jesus ordenou cuidar dos marginalizados Suas ações desafiaram as estruturas de poder da época, promovendo a dignidade dos vulneráveis, a partilha de recursos. Uma de suas principais ações foi o combate à opressão, batendo de frente com os opressores, estabelecendo a justiça social.


A barbárie está colocada, mas, apesar do poder do capital nas esferas políticas, religiosas, cultural e social, não apagará os sonhos. A utopia é poderosa bastante para superar as barreiras. A estrada é longa, ainda tem muito que caminhar, com esperança de dias melhores, em permanente luta. O voto é a arma, a hora é de pensar nas eleições de outubro, na escolha dos candidatos. Os bolsonaro, traidores da Pátria, representam ameaça, do mesmo modo aqueles que os seguem, como o homem exibindo a arma no bar ou o líder religioso a empunhar a Bíblia e colocar a barbárie acima de um deus que dizem seguir, mas, no dia a dia, se colocam longe de Deus, pela exclusão, a violência, o ódio e outras formas de destruição, a morte!


Roberto Junquilho é jornalista e editor de conteúdo do portal É Isso

 
 
 

Comentários


bottom of page