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Pastores da ignorância

  • há 4 dias
  • 4 min de leitura

Marcelo Rossoni


A ignorância sempre foi um dos ativos mais valiosos da humanidade. Não porque seja uma virtude, mas porque, ao longo da história, sempre houve quem descobrisse como transformá-la em riqueza, poder e influência. O conhecimento emancipa; a ignorância, ao contrário, cria dependência. Quem desconhece seus direitos aceita abusos como se fossem naturais. Quem desconhece a própria história torna-se presa fácil de quem deseja reescrevê-la. Quem não desenvolve o hábito de pensar acaba vivendo a partir das ideias dos outros.


Convém distinguir ignorância de falta de inteligência. São conceitos completamente diferentes. A ignorância é apenas a ausência de conhecimento sobre determinado assunto. Já a inteligência é a capacidade de compreender, relacionar fatos, aprender e raciocinar. Há pessoas com pouca instrução formal que demonstram admirável sabedoria, enquanto outras, cercadas de diplomas, revelam espantosa incapacidade de questionar aquilo que lhes é apresentado como verdade absoluta.


Nenhum poder teme um povo pouco instruído. Governos autoritários, ditaduras, seitas, religiões, organizações criminosas e toda forma de dominação sempre compreenderam essa lógica. Um cidadão que lê, compara informações, estuda e faz perguntas é infinitamente mais difícil de controlar. Já aquele que aceita qualquer discurso sem submetê-lo ao crivo da razão torna-se previsível. E pessoas previsíveis são facilmente conduzidas.


A manipulação moderna não depende mais da censura. Ela descobriu um método muito mais eficiente: inundar a sociedade com informações superficiais, versões contraditórias, escândalos permanentes e entretenimento incessante. O objetivo não é esconder a verdade, mas enterrá-la sob uma avalanche de ruído. Quando tudo parece verdadeiro, nada mais parece confiável. Nesse cenário, a emoção vence a razão, e a convicção passa a valer mais do que a evidência.


As consequências são devastadoras. Na política, elegem-se salvadores da pátria incapazes de administrar um condomínio. Na economia, multiplicam-se golpes, pirâmides financeiras, site de apostas esportivas e falsas promessas de enriquecimento rápido. Na saúde, charlatães disputam espaço com a ciência. Nas relações humanas, os preconceitos sobrevivem porque pensar exige esforço, enquanto repetir slogans é confortável.


Há quem descubra cedo que a ignorância pode ser um excelente negócio. Alguns líderes religiosos perceberam isso com extraordinária habilidade. Quanto menos o fiel pergunta, mais facilmente aceita. Quanto menos conhece, mais depende de quem se apresenta como intérprete exclusivo da vontade divina. 


A fé, que deveria aproximar o homem de Deus, acaba sendo utilizada, em certos casos, para aproximar o dinheiro do caixa da instituição. O altar transforma-se em palco; o sermão, em estratégia de convencimento; a contribuição voluntária, em obrigação moral; e a prosperidade prometida quase sempre floresce primeiro na garagem, na conta bancária e no patrimônio de quem prega.


É curioso observar que muitos dos que condenam o apego às riquezas parecem não demonstrar qualquer dificuldade em desfrutá-las. O discurso exalta a humildade; a prática, por vezes, ostenta carros importados, relógios de luxo, propriedades milionárias e estruturas empresariais cuidadosamente organizadas.


O problema não está na fé, que ao longo da história inspirou incontáveis obras de solidariedade e transformação humana. O problema surge quando a fé deixa de ser um caminho espiritual para tornar-se um modelo de negócios, em que a ignorância do rebanho passa a representar um ativo de enorme valor econômico. Afinal, quem não faz perguntas dificilmente pede prestação de contas.


Mas seria ingenuidade imaginar que apenas a religião descobriu esse filão. A política também aprendeu que é muito mais simples fabricar inimigos do que resolver problemas. O mercado percebeu que consumidores mal informados compram mais e reclamam menos. As redes sociais transformaram a indignação em mercadoria altamente rentável. Quanto maior a mentira, maior a repercussão; quanto mais absurda a afirmação, maior o número de compartilhamentos. A verdade, lenta e cautelosa, quase sempre chega atrasada à festa da desinformação.


Existe ainda uma ironia cruel. Nunca a humanidade teve acesso a tanto conhecimento. Bibliotecas inteiras cabem hoje no bolso de qualquer pessoa. Em poucos segundos é possível consultar livros, artigos científicos, documentos históricos e opiniões de especialistas do mundo inteiro. Mesmo assim, cresce o número daqueles que preferem acreditar no vídeo de trinta segundos, na mensagem sem autoria ou na frase de efeito compartilhada milhares de vezes. A tecnologia democratizou o acesso ao conhecimento, mas também democratizou a ignorância voluntária.


Talvez a maior tragédia não seja a existência da ignorância, pois ninguém nasce sabendo. A verdadeira tragédia ocorre quando alguém faz da ignorância um modo de vida e, pior ainda, quando outros descobrem que ela pode ser explorada como fonte inesgotável de lucro e poder. Nesse instante, o desconhecimento deixa de ser uma limitação humana para tornar-se uma indústria extremamente rentável.


A liberdade nunca foi um presente concedido pelos poderosos. Ela sempre nasceu do conhecimento. Quem lê torna-se mais difícil de enganar. Quem estuda aprende a desconfiar das respostas fáceis. Quem faz perguntas incomoda. E quem incomoda raramente é manipulado.


Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja quem lucra com a ignorância. A resposta está diante de nós todos os dias. A pergunta realmente decisiva é outra: quem está disposto a deixar de ser ignorante? Porque a partir desse momento, todo manipulador perde seu principal patrimônio: um público incapaz de pensar por conta própria.


Marcelo Rossoni é jornalista, técnico em Contabilidade e graduado em Administração de Empresas.

 
 
 

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