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A roda pode sair do eixo

  • há 3 dias
  • 4 min de leitura

Lino Resende


A leitura do ensaio "A Nova Velha Ordem Mundial de Trump", de Benn Steil, é provocante e, ao mesmo tempo, incômoda, por indicar que a política externa de Donald Trump não aponta para o futuro, mas para o passado, que o autor considera perigoso.


Não um passado idealizado de estabilidade e previsibilidade, e sim o mundo anterior a 1914, marcado por rivalidades entre potências, com esferas de influência rígidas e uma quase total ausência de regras compartilhadas. Como a história nos mostra, este foi um mundo que terminou em catástrofe.


Se vemos Trump improvisando e rompendo com tradições por um impulso, Steil o vê de forma diferente. Segundo ele, atrás das ações do presidente dos Estados Unidos, há uma lógica relativamente coerente. Seu objetivo é reduzir o papel global dos EUA e concentrar o poder no hemisfério ocidental. O resto do mundo, nesta visão, é um tabuleiro de barganhas entre as potências.


O que temos, pelo menos na visão de Trump, ainda segundo Steil, é uma volta ao século XIX, quando a política internacional funcionava mais por força, dissuasão e cálculo estratégico, não por meio das instituições que congregam nações e governos, como a ONU.


A Doutrina Donroe, criada por Trump com a releitura da Doutrina Monroe, instituída após a Segunda Guerra Mundial, sintetiza o movimento feito pelo político, ao reafirmar que o Ocidente é uma zona de influência quase que exclusiva dos Estados Unidos. Uma mostra disso foi uma recente fala de um subordinado de Trump dizendo que são eles que mandam na América Latina.


Exatamente por isso é que Benn Steil destaca que a lógica simples, direta e antiga é inadequada para o mundo atual, principalmente porque o mundo que Donald Trump enxerga não mais existe. Mais precisamente, ele só sobrevive como lembrança histórica sob a ótica de como tudo terminou mal, levando a duas guerras que, no final, acabaram provocando as mudanças e fazendo-nos chegar onde hoje estamos.


A noção de uma ordem internacional baseada em regras, normas e instituições, que os Estados Unidos ajudaram a criar e consolidar após o término da Segunda Guerra Mundial, após 1945, mudou todo o panorama da geopolítica internacional. O novo sistema, mesmo com suas falhas, contribui para evitar guerras entre potências e nos lembra de como ficamos tão perto de um holocausto nuclear.


A visão de Trump é de curto prazo. Onde, hoje, existem alianças políticas, como é o caso da OTAN, ele vê fardo financeiro, aponta exploração e limitação à sua política. Os Estados Unidos, sob a nova liderança de Trump, estão trocando compromissos duradouros por acordos pontuais, enfrentando a ameaça de abandono e participando de negociações erráticas que mudam a cada momento.


Um bom exemplo deste último caso é a guerra com o Irã. Em um dia, pela manhã, Trump faz uma afirmação, que desmente na hora do almoço e reafirma, modificando-a, no final da tarde. O que essa política traz é insegurança, não só para os aliados, mas em outras mesas de negociação. Tanto é assim que, novamente no caso do Irã, o governo do país colocou uma etiqueta de não confiável nos Estados Unidos, exatamente pelas idas e vindas.


A nova política cria ceticismo, começando pelos aliados dos Estados Unidos. Hoje, a Europa questiona se realmente seria ajudada por Trump em caso de uma grave crise. A falta de certeza e a ausência de perspectiva de retorno ao status antigo levam à busca de alternativas, como novos arranjos regionais e uma aproximação pragmática com os rivais de Washington. A confiança estratégica, uma vez perdida, é difícil de reconstruir.


Há, como em tudo na vida, um outro lado. Para a China, a mudança dos Estados Unidos cria oportunidades e facilita a ascensão de uma potência que está disposta a preencher os vazios institucionais, baseada em investimentos e influência política. Enquanto os EUA ameaçam, a China oferece ajuda e busca tornar mais estreitos seus laços por quem foi abandonado ou prejudicado pela política de Trump.


Para o mundo, o retorno a esse “velho novo” sistema significa mais incerteza e desafios que exigem coordenação coletiva. Mudanças no clima, pandemias e crises financeiras tornam-se secundárias, pois a política internacional se reduz a disputas de poder entre Estados. Cada país passa a agir de forma mais isolada, guiado por interesses imediatos, como se fosse possível escapar das interdependências globais.


A questão central, em relação à política dos Estados Unidos, não é se Trump tenta fazer a roda da história girar para trás, mas se é efetivamente possível. A resposta de Steil parece negativa. O mundo do século XXI é mais interdependente, mais conectado e mais complexo do que o de 1900. Cadeias globais de produção, fluxos financeiros instantâneos e ameaças transnacionais tornam inviável uma restauração plena da lógica clássica das grandes potências territoriais.


A tentativa de Trump não é inofensiva. Mesmo que a história não possa ser revertida, ela pode ser desorganizada. Ao agir como se regras fossem opcionais e alianças descartáveis, os Estados Unidos aceleram a fragmentação da ordem internacional. O resultado dificilmente será um retorno estável ao passado, mas um presente mais volátil, no qual velhos erros reaparecem em um contexto ainda mais complexo e potencialmente explosivo.


A roda da história não gira para trás. Mas pode sair do eixo. É exatamente esse o risco que as dinâmicas descritas por Benn Steil colocam sobre a mesa.


Lino Resende é jornalista, escritor e mestre em História Política pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).

 
 
 

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