Desigualdade é defeito ou engrenagem do sistema?
- há 20 horas
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Marcelo Rossoni
Não se sabe ao certo quem foi o autor da frase que volta e meia reaparece em debates econômicos, artigos de opinião e discussões nas redes sociais: “a desigualdade não é uma falha do sistema capitalista; ela demonstra que o sistema funciona”. A autoria permanece nebulosa. Ainda assim, como acontece com muitas frases de efeito, a ideia sobreviveu ao anonimato — talvez justamente porque contém uma provocação que incomoda e, ao mesmo tempo, faz pensar.

Em boa medida, a reflexão lembra discussões antigas da teoria econômica. Ao ler o clássico “Economia” (Economics), do economista americano Paul Samuelson, obra recomendada há muitos anos por meu falecido sogro, o professor Mario Ferreira Sacramento — catedrático do Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas da Universidade Federal do Espírito Santo — percebe-se que o tema da distribuição de renda sempre ocupou lugar central no debate econômico.
Samuelson observava que os mercados remuneravam de maneira distinta os chamados fatores de produção — trabalho, capital e recursos naturais. Dessa dinâmica surgem diferenças inevitáveis de renda. Em termos simples: quem possui capital, qualificação escassa ou ativos produtivos tende a receber mais por eles.
Não é exatamente uma revelação moral; é uma constatação econômica.
Desde a Revolução Industrial, o capitalismo demonstrou extraordinária capacidade de gerar riqueza. A produção se expandiu, a tecnologia avançou e o comércio internacional ganhou escala global. Países que adotaram economias de mercado ampliaram sua capacidade produtiva e elevaram o padrão médio de consumo de suas populações.
Há pouco mais de dois séculos, grande parte da humanidade vivia em condições que hoje seriam classificadas como extrema pobreza. Nesse sentido, a economia de mercado transformou profundamente a estrutura econômica do planeta.
O detalhe — nada irrelevante — é que a riqueza produzida nunca se distribuiu de maneira uniforme.
Em praticamente todas as sociedades contemporâneas, a renda assume a forma de uma pirâmide. No topo, um grupo relativamente pequeno concentra grande parcela da riqueza. Na base, uma parcela muito maior da população disputa recursos limitados.
As desigualdades, portanto, não se espalham de forma homogênea ao longo dessa estrutura. Elas se concentram sobretudo na base da pirâmide social — expressão utilizada por economistas e sociólogos para descrever o segmento onde se acumulam renda baixa, oportunidades escassas e maior vulnerabilidade econômica.
Ali se concentram também os efeitos mais visíveis da desigualdade: empregos instáveis, acesso limitado à educação de qualidade, dificuldades para acumular patrimônio e menor capacidade de proteção diante de crises econômicas.
Enquanto isso, no topo da pirâmide, a dinâmica costuma seguir um caminho diferente. O acesso ao capital, ao crédito e às redes de influência amplia as possibilidades de investimento e multiplicação da riqueza. Em muitos casos, a renda deixa de depender exclusivamente do trabalho e passa a derivar de ativos financeiros ou empresariais.
Essa diferença estrutural ajuda a explicar por que o debate sobre desigualdade permanece tão presente nas discussões econômicas contemporâneas.
Defensores do capitalismo costumam argumentar que as diferenças de renda não são necessariamente injustas. Para eles, a desigualdade pode refletir níveis distintos de produtividade, inovação ou disposição para assumir riscos econômicos. Nesse raciocínio, o essencial seria garantir mobilidade social — ou seja, oportunidades reais para que indivíduos possam melhorar de vida.
Os críticos, por sua vez, observam que essa mobilidade nem sempre ocorre com a intensidade prometida. Quando a concentração de riqueza se torna muito elevada, as oportunidades também tendem a se concentrar.
O resultado é um ciclo difícil de romper: quem nasce na base da pirâmide encontra mais obstáculos para ascender, enquanto quem já está próximo do topo dispõe de instrumentos mais eficazes para preservar ou ampliar sua posição.
Diante desse quadro, a frase de autoria desconhecida ganha novo significado interpretativo. Talvez a desigualdade não seja apenas um erro de percurso do sistema econômico. Talvez ela seja, em alguma medida, parte do próprio mecanismo que organiza a economia moderna.
Isso não significa, evidentemente, que sociedades estejam condenadas a aceitar passivamente qualquer nível de desigualdade. Ao longo do século XX, diversos países criaram políticas públicas destinadas a reduzir disparidades — tributação progressiva, sistemas de proteção social e investimentos em educação.
Essas experiências demonstram que o capitalismo pode assumir diferentes formatos institucionais. A economia de mercado permanece como motor de produção de riqueza, mas as escolhas políticas definem até que ponto essa riqueza será redistribuída.
Talvez seja por isso que a frase anônima continue circulando. Não porque ofereça uma explicação definitiva, mas porque sintetiza uma pergunta incômoda que atravessa o debate econômico há gerações.
E perguntas incômodas, como se sabe, costumam sobreviver por muito mais tempo do que as respostas fáceis.
Marcelo Rossoni é jornalista



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