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Estudo inédito da Ufes revela consumo excessivo de sal

  • 1 de jul.
  • 4 min de leitura

Um estudo realizado pelo grupo de pesquisa em Epidemiologia das Doenças Crônicas do Centro de Ciências da Saúde (CCS/Ufes) oferece a primeira estimativa sobre o consumo de sal no Brasil. Por meio da análise da urina de 24 horas (método considerado padrão-ouro para estimar a ingestão de sódio), a pesquisa avaliou estudantes de 6 a 17 anos e identificou um cenário que acende um alerta para a saúde pública: crianças e adolescentes de Vitória consomem em média 8,8 gramas de sal por dia, quase o dobro da quantidade recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Apenas 13% dos participantes apresentaram ingestão dentro dos limites adequados para a idade.


Esses resultados são fruto do Projeto Kids Sal, conduzido pelos pesquisadores Carolina Faria, Enildo Pimentel, Gabriela Quinte e Romildo Andrade, sob coordenação do professor do Departamento de Ciências Fisiológicas José Geraldo Mill. A pesquisa nasceu para preencher uma lacuna no conhecimento sobre o consumo de sal na população infantojuvenil brasileira, já que, entre 2013 e 2015, a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), realizada pelo Ministério da Saúde (MS), estimou que os brasileiros com mais de 18 anos consumiam cerca de 10 gramas de sal por dia, mas não incluiu crianças e adolescentes.


O estudo mobilizou escolas, famílias e pesquisadores durante quase dois anos. Entre abril de 2024 e novembro de 2025, cerca de 1.060 estudantes de 12 escolas públicas e privadas de Vitória se inscreveram para participar do estudo. Destes, 619 concluíram todas as etapas e 516 tiveram a coleta de urina de 24 horas validada para análise, formando o primeiro conjunto de dados do país sobre o consumo de sal nessa faixa etária.


O procedimento de coleta de urina de 24 horas exigiu grande comprometimento dos participantes, que armazenaram toda a urina produzida durante um dia para análise. Além da coleta, os estudantes passaram por exames laboratoriais, avaliação cardiovascular, eletrocardiograma, bioimpedância, espirometria e responderam a questionários sobre alimentação, atividade física e hábitos de vida.


Hábitos alimentares


Os achados ajudam a explicar por que conhecer os hábitos alimentares desde a infância é essencial para a prevenção de várias doenças, principalmente das cardiovasculares. “O efeito mais imediato do consumo excessivo de sal é o aumento progressivo da pressão arterial e maior risco de desenvolver mais cedo hipertensão arterial”, afirma Mill. Segundo ele, para cada grama consumido acima do limite recomendado, a pressão arterial dos jovens aumenta, em média, 1 milímetro de mercúrio. A longo prazo, esse quadro pode evoluir e aumentar o risco de infarto do miocárdio e acidente vascular encefálico (derrame), duas das principais causas de morte no Brasil e no mundo.


O pesquisador observa ainda que a preferência por alimentos muito salgados é construída desde os primeiros anos de vida. Crianças que se acostumam a esse padrão alimentar tendem a manter um elevado consumo de sal ao longo da vida adulta. Como comparação, Mill lembra que, mesmo sem adição de sal à comida, uma pessoa consome naturalmente cerca de 1 grama de sal presente nos próprios alimentos.


Os resultados também mostraram que o consumo de sal aumenta com a idade e é mais elevado entre os meninos. Dos 14 aos 17 anos, eles ingerem em média 9,5 gramas de sal por dia, enquanto as meninas da mesma faixa etária consomem 8 gramas. Outro achado importante foi que cerca de 4% dos participantes já apresentavam níveis de pressão arterial compatíveis com pré-hipertensão ou hipertensão.


Embora a elevação da pressão arterial seja o efeito mais conhecido do consumo excessivo de sal, o pesquisador alerta que seus impactos vão além: “O excesso de sal na comida tem outros efeitos indesejáveis, como o aumento da formação de cálculos nos rins. Cálculo é um fator que predispõe à doença renal crônica. Pacientes com doença renal crônica, além de terem um problema grave de saúde, têm qualidade de vida muito prejudicada”.


Mill destaca, ainda, que não existe uma única origem para o excesso de sódio na alimentação. Embora boa parte dele ainda venha do sal adicionado no preparo das refeições, alimentos industrializados, como embutidos, carnes salgadas, queijos e temperos prontos também podem responder por grande parte da ingestão. Por isso, explica o pesquisador, as estratégias para reduzir o consumo devem considerar os hábitos alimentares de cada pessoa.


Recomendações


Com base nesse diagnóstico, a equipe elaborou recomendações voltadas a pais e responsáveis para reduzir o consumo de sal desde a infância. As principais orientações incluem diminuir gradualmente a quantidade de sal utilizada no preparo dos alimentos, evitar o consumo frequente de produtos ultraprocessados (especialmente embutidos, carnes salgadas, temperos prontos e refeições congeladas), "bem como os ‘salgadinhos’ e ‘chips’, que, em geral, contêm altíssimo teor de sal", e retirar o saleiro da mesa. Segundo os pesquisadores, essa redução gradual permite que o paladar se adapte e reconheça melhor o sabor natural dos alimentos.


Além de produzir um retrato inédito do consumo de sal entre crianças e adolescentes brasileiros, o Projeto Kids Sal validou, para a população brasileira, fórmulas internacionais capazes de estimar a ingestão de sódio a partir de uma única amostra de urina. Uma delas apresentou melhor desempenho e poderá tornar futuras pesquisas populacionais mais simples e viáveis. “Realizar um estudo de abrangência nacional coletando urina de 24 horas de milhares de crianças seria praticamente impossível e muito caro. As nossas análises mostraram que a fórmula com melhor desempenho se mostrou adequada e precisa para estimar, de forma viável, o consumo de sal em crianças brasileiras”, explica.


Segundo o coordenador, essa validação abre caminho para que o Ministério da Saúde realize um levantamento nacional com amostras de urina de pequeno volume, que podem ser coletadas em escolas, mantendo a coleta de 24 horas apenas para avaliações individuais ou estudos mais detalhados. A intenção de expandir esse tipo de investigação para todo o país foi, inclusive, uma das razões para o financiamento do Projeto Kids Sal pela Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS/MS) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), com suporte administrativo da Fundação Espírito-Santense de Tecnologia (Fest).



 
 
 

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