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Caso de identidade

  • 16 de mar.
  • 3 min de leitura

Álvaro Silva


Quando eu era pequeno, ia muito a cinema, coisa que faço até hoje. Num deles então existente da Avenida Lins de Vasconcelos, no Cambuci em São Paulo, gostava de ver os filmes de bangbang, que eram muitos e passavam todos os dias. Ficava triste porque os índios perdiam todas as batalhas, até que um dia papai me disse: "É da cultura deles, filho. O índio e o assaltante de bancos são os bandidos dos filmes". Então entendi porque a maioria se identificava tanto com as histórias de mocinho e bandido.


Um dia meu pai foi comprar munição para uma espingarda de caça dele numa loja de Campos dos Goytacazes porque iriam, ele e seu cunhado Antônio caçar marrecas nas barrancas do Rio Paraíba do Sul, perto de Atafona. Eu não iria com eles para não ver os bichos serem mortos e provoquei uma gargalhada geral na loja de armas ao questionar se lá eram vendidos "revólveres de mocinho". "Como são esses?", perguntou o comerciante. Expliquei: "Eles só ficam sem balas depois que os xerifes se escondem atrás das pedras. Os dos índios e dos bandidos nunca acertam o alvo e falham porque as balas mascam depois do segundo tiro..."


"Um batalha após a outra", o grande campeão do Oscar 2026 - seis estatuetas - é o retrato da cultura dos Estados Unidos. Um belo filme, com um Leonardo DiCaprio marcando presença (foto), mas apenas isso. Só que ele é a identidade do cinema daquele país. É a cara da cultura norte-americana e quem escolhe os campeões de qualidade em Hollywood são todos de lá. Identificam-se com os mocinhos de seus filmes. "O agente secreto", lindíssimo e com uma aula de interpretação de Wagner Moura é a cara do Brasil, um retrato de nossos valores, uma reconstituição de parte da história brasileira mais recente e seria mesmo muito difícil ficar com o maior de todos os prêmios nas terras de Tio Sam.


2025 foi ano de belos filmes. Como "Hamnet: A vida antes de Hamlet", que premiou Jessie Buckley como melhor atriz no papel de Anne Hathaway, a mulher do bardo William Shakespeare. Não poderia ter sido escolhida outra. "Valor Sentimental", mais uma bela obra, acabou premiado porque não poderia ficar de fora. "Marty Supreme" e "Pecadores", que não vi, também foram reconhecidos. Faltou premiar "Sonhos de trem", um drama humano belíssimo e que tinha um brasileiro como autor da fotografia. Enfim, não se pode exigir muito no mundo do cinema. Nem que a grandeza de "Foi apenas um acidente" terminasse reconhecida, isso para não termos que falar de todos, como também de "Frankenstein".


Como no ano passado com "Ainda Estou Aqui" o Brasil mostrou que estamos num momento mágico de nosso cinema, o que não seria possível num governo de extrema direita. Hoje mesmo muita gente minúscula comemorou o fato de "O Agente Secreto" não ter ganho ao menos um Oscar, mas todos sabemos que ele é o grande vencedor e vai ser lembrado como alguma de nossas melhores produções, como foi o caso de "Eles Não Usam Black Tie", que nada ganhou além de muito respeito por ter sido um enfrentamento à ditadura militar.


O Brasil é pródigo em bons atores e atrizes, diretores talentosos e autores com belas histórias. Uma delas foi "Marighela", de 2019, que marcou a estréia de Wagner Moura como diretor e contou com uma atuação maiúscula de Seu Jorge vivendo o personagem principal. Esse filme talvez nunca entrasse em circuito nacional se o hoje presidiário Bolsonaro ainda fosse presidente, porque todos os boicotes foram feitos para impedir a exibição desse trabalho. Não passa e não passará pelas cabeças das pesssoas muito pequenas, sobretudo ética e moralmente, que o cinema é antes de tudo uma expressão artística e não existe arte dissociada de seu caráter social, político e também ideológico.

Definitivamente, o Brasil leva jeito...


Álvaro Silva é jornalista e escritor

 
 
 

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