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O problema é quem sobrevive com o mínimo

  • 24 de mar.
  • 3 min de leitura

Marcelo Rossoni


Quem ganha mais de R$ 100 mil por mês — essa “espécie rara” que costuma viver em coberturas com vista para o mar ou manter casa na praia ou nas montanhas — conseguiu um feito retórico notável: convencer quem recebe cerca de R$ 10 mil de que o grande vilão nacional é quem sobrevive com o salário mínimo.


Parece enredo de ficção científica. Mas é realidade.


O argumento é simples, repetido com convicção técnica: o país não cresce porque “há muita gente pesando na conta”. A conta, claro, quase sempre é a do outro. Nunca a do consultor que emite notas de seis dígitos. Nem a do investidor que percebe “movimentos do mercado” com impressionante antecedência.


Não. O problema seria dona Maria, que pega dois ônibus para trabalhar e ainda recebe um benefício social para complementar a renda. É ela quem, na narrativa corrente, desequilibra o PIB — Produto Interno Bruto, a soma de tudo o que se produz no país, ainda que às vezes pareça medir apenas a produção de indignações seletivas.


O cidadão dos R$10 mil, por sua vez, vive um drama real. Trabalha, paga impostos, sente-se pressionado. E está mesmo. Mas, em vez de olhar para cima — onde a renda sobe como foguete e a tributação muitas vezes desce suavemente — prefere mirar para baixo. É mais confortável disputar espaço com quem está no degrau inferior do que questionar o elevador privativo do topo.


Criou-se a narrativa de que o Brasil seria um condomínio em que o morador do apartamento 101 é responsável pela piscina aquecida da cobertura. A lógica é engenhosa e quase dispensa matemática.


Enquanto isso, quem ganha R$100 mil observa o debate como espectador atento. Quanto menos se fala em dividendos, isenções e planejamento tributário — expressão elegante para redução legal de impostos — melhor.


Há um talento evidente em transformar o desconforto da classe média em crítica ao salário mínimo, e não aos privilégios acumulados ao longo de décadas. Substitui-se a discussão estrutural por uma disputa de sobrevivência entre desiguais.


E a disputa é ruidosa. Nas redes sociais, nos grupos de família, nas mesas de bar, a conversa gira sempre no mesmo eixo: “alguém está levando vantagem”. Curiosamente, esse alguém quase nunca mora nas coberturas que aparecem nas estatísticas de concentração de renda. Mora, isso sim, na periferia da planilha mental que simplifica o mundo.


O sujeito dos R$10 mil, pressionado pela escola dos filhos, pelo financiamento do carro e pelo plano de saúde, sente-se mais próximo do topo do que da base. É compreensível — ninguém quer descer degraus simbólicos. Mas a distância entre R$10 mil e R$100 mil é um abismo matemático; já a distância entre R$10 mil e o salário mínimo pode ser reduzida rapidamente por qualquer instabilidade econômica.


Ainda assim, a narrativa prospera. Oferece conforto moral. É mais simples atribuir o problema do país ao excesso de benefícios destinados a quem ganha pouco do que discutir a estrutura tributária regressiva — aquela em que quem ganha menos compromete proporcionalmente mais da renda com impostos indiretos, embutidos no preço do arroz, do feijão e da conta de luz.


A palavra “privilégio” ganhou sentido curioso. Passou a designar, com frequência, direitos mínimos de sobrevivência. Já as isenções sofisticadas e as vantagens negociadas nos corredores silenciosos do poder recebem o nome de “ambiente de negócios”. Soa técnico. E, quando algo soa técnico demais, tende a se tornar indiscutível.


No fim, todos se consideram defensores do país. O dos R$10 mil acredita que luta pela responsabilidade fiscal. O dos R$100 mil celebra a eficiência do discurso. E quem vive com o salário mínimo continua acordando às cinco da manhã, alheio ao fato de que, segundo certas narrativas, seria responsável pelo desequilíbrio macroeconômico nacional.


É um enredo recorrente: quem tem muito aponta para quem tem pouco, e quem tem pouco aponta para quem tem menos ainda.


A desigualdade no Brasil é antiga.


O que mudou foi a eficiência com que ela aprendeu a se apresentar como bom senso — especialmente quando convém que o olhar permaneça voltado para baixo.


Marcelo Rossoni é jornalista

 
 
 

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