Vitória militar, derrota política
- 19 de mar.
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Lino Resende
Os Estados Unidos podem até vencer mais uma guerra no Oriente Médio, tomando o sentido estritamente militar. Os sinais iniciais, no entanto, indicam que, se a vitória ocorrer, pode trazer o peso de uma derrota estratégica, econômica e política. A história da participação dos EUA nas guerras do Vietnã e Iraque dá indicação do que pode ocorrer no campo político.
Os efeitos da guerra, como já ocorreu no Vietnã e no Iraque, se prolongam na economia, na diplomacia e, sobretudo, na vida da população dos Estados Unidos e, neste último caso, podem refletir no resto do mundo, devido ao petróleo. O que especialistas indicam, incluindo alguns que estavam alinhados com o presidente Donald Trump, é que o confronto regional, que extrapolou o alvo principal, pode redesenhar o equilíbrio de poder global, acelerando a perda de influência norte-americana no mundo.
Se olharmos apenas do lado militar, como reconhecem especialistas, os Estados Unidos têm superioridade militar, tecnológica, logística e operacional na guerra que estão travando e cuja intenção é que fosse rápida e cirúrgica. Se, no confronto direto, a superioridade dos Estados Unidos é flagrante, o enfraquecimento do Irã seria rápido e, com ele, viria a rendição, exigida por Trump. Esse seria o lado da vitória.
A capacidade militar dos Estados Unidos, assim, neutralizaria as ameaças e reafirmaria o seu papel de potência dominante. Não foi o que, até agora, aconteceu. Como o próprio Trump admitiu, a reação do Irã foi, para ele, uma surpresa. O fato é que guerras não se ganham apenas com o poder de fogo, o que ficou bem claro no caso do Vietnã, do Iraque e do Afeganistão. A duração da luta a coloca em outro patamar, inclusive pelo envolvimento de toda uma região.
O lado da derrota, mesmo com uma vitória militar, resulta, em primeiro lugar, do próprio custo da guerra. O cálculo é que o gasto chega a 2 bilhões de dólares por dia. Em duas semanas, são cerca de 28 bilhões. É dinheiro do contribuinte que não vai ser usado em seu favor e, pior, é ele que terá de aturar as consequências da ação. O volume de gasto tornará mais estreito o orçamento dos EUA, pois ele amplia o déficit e pressiona as taxas de juros, limitando a capacidade de investimento interno.
As consequências chegam rapidamente ao cidadão comum, que sente o impacto em forma de inflação, crédito mais caro e redução do poder de compra. O histórico de guerras recentes mostra que esse efeito interno costuma ser mais decisivo do que qualquer vitória externa. No caso do Vietnã e do Iraque, o resultado foi a derrota dos governantes e de seus partidos, com o poder sendo assumido por seus adversários.
A situação, no entanto, é um pouco pior que nas guerras anteriores. A região do Golfo concentra rotas estratégicas, como o Estreito de Ormuz, por onde passa uma parcela significativa da produção mundial de petróleo. O impacto é imediato, com o aumento de preços do petróleo e o seu reflexo em uma longa cadeia que depende dele, da gasolina aos medicamentos. Com ele vem o encarecimento dos transportes, alimentos, energia, produção industrial e serviços. O resultado é uma inflação disseminada que atinge não apenas os Estados Unidos, mas seus aliados e parceiros comerciais, criando um ambiente de insatisfação generalizada.
Nesse cenário, abre-se espaço para um efeito político previsível. A primeira consequência vem nos resultados eleitorais no plano local. No internacional, o conflito também produz fissuras importantes. Aliados tradicionais dos Estados Unidos se veem pressionados a tomar posição em um cenário cada vez mais polarizado, enquanto países emergentes buscam alternativas para reduzir sua dependência da economia americana. Esse movimento não ocorre de forma abrupta, mas ganha força em momentos de crise. A instabilidade gerada pela guerra incentiva a diversificação de parcerias comerciais e financeiras, fortalecendo outros polos de poder e acelerando a transição para um mundo mais multipolar. O maior lucro, neste caso, é da China, a segunda economia do mundo.
A dinâmica do conflito reforça esse processo. A possibilidade de uma guerra prolongada, sem resultados claros como a mudança de regime no Irã, tende a repetir padrões já observados em intervenções anteriores. Em vez de estabilizar a região, essas ações frequentemente ampliam tensões, estimulam novos atores a entrar no conflito e criam ciclos de instabilidade difíceis de controlar. O resultado é um ambiente mais volátil, com impactos contínuos sobre a economia global e a segurança internacional.
Choques no preço do petróleo historicamente antecedem períodos de desaceleração econômica ou recessão. Quando combinados com gastos elevados de guerra e incerteza geopolítica, eles criam um cenário propício para a estagflação, em que a economia cresce pouco ou entra em retração ao mesmo tempo em que os preços sobem. Esse é um dos piores cenários possíveis para qualquer governo, pois limita as opções de resposta e amplia o descontentamento social.
Diante desse quadro, a ideia de vitória precisa ser relativizada. Vencer militarmente pode significar cumprir objetivos imediatos, mas não garante estabilidade, prosperidade ou fortalecimento da posição internacional no longo prazo. Ao contrário, pode abrir caminho para um desgaste contínuo, tanto interno quanto externo. A guerra, que começa como demonstração de força, termina como fator de fragilização dos Estados Unidos.
A derrota estratégica não se manifesta de forma instantânea. Ela se constrói gradualmente, na perda de influência, na erosão da confiança dos parceiros, no enfraquecimento da economia e na crescente dificuldade de sustentar o papel de liderança global. Esse processo é silencioso, mas profundo. Ele não aparece em manchetes de vitórias militares, mas se revela nos indicadores econômicos, nas alianças que se desfazem e nas novas configurações de poder que emergem. Um dos primeiros indícios é a exigência do Irã de receber pagamentos pelo petróleo em yuan, a moeda da China.
O que está em jogo não é apenas o resultado de um conflito específico, mas a direção que o sistema internacional pode tomar a partir dele. Se a guerra continuar a produzir inflação, instabilidade energética e tensões políticas; ela tende a acelerar mudanças que já estavam em curso, reduzindo o espaço de atuação dos Estados Unidos e ampliando o protagonismo de outros atores, notadamente a China, que, aparentemente, está jogando parada.
A hipótese de uma vitória de um lado acompanhada de uma derrota do outro não é contraditória, mas complementar. Ela reflete a complexidade de um mundo em que o poder militar, por si só, já não garante sucesso duradouro. A guerra pode até ser vencida no campo de batalha, mas o preço pago fora dele pode ser alto demais para sustentar qualquer ideia de triunfo. A derrota, neste caso, vem do lado político e no realinhamento mundial, que tende a isolar os Estados Unidos, uma posição, aliás, que o presidente Donald Trump defende com o discurso de seu país em primeiro lugar.
Lino Resende é jornalista, escritor e mestre em História Política pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).
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