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Nilo Peçanha, o esquecido

  • 3 de jan.
  • 3 min de leitura

Marcelo Rossoni


Dizem que a história oficial adora vitrines bem polidas, aquelas em que heróis aparecem brancos, brilhantes e convenientemente fotografados. Já os personagens que não cabem neste enquadramento acabam empurrados para as prateleiras de baixo, onde o pó faz companhia ao silêncio. Nilo Procópio Peçanha, presidente do Brasil entre 1909 e 1910, tem sido um desses casos: um homem de origem humilde, negro, e carreira política sólida que, por algum capricho ou conveniência, não costuma frequentar o panteão dourado da memória nacional.


Nilo nasceu em Campos dos Goytacazes, filho de uma mulher negra, possivelmente descendente de pessoas escravizadas, e de um padeiro de origem humilde. Para a Primeira República, acostumada a gabinetes com sobrenomes longos e árvores genealógicas mais próximas do Império do que do povo, sua mera presença no topo da política já era um ruído incômodo. Era preferível acreditar que ele fosse “moreno elegante”, como alguns cronistas tentaram sugerir, ou que suas fotos tivessem sido tiradas em dias nublados demais. A cor, afinal, sempre foi um problema para quem tratava o Brasil oficial como um salão europeu com ventilador de teto.


Antes de chegar ao Palácio do Catete, Nilo percorreu uma trilha política que não costuma ser atribuída a alguém que a história tentou embranquecer. Foi deputado, senador, governador do então Estado do Rio de Janeiro e vice-presidente. Quando Afonso Pena morreu, em 1909, coube a ele assumir a Presidência — e assumir sem pedir desculpas, sem apagar suas origens, ainda que parte da elite preferisse que ele circulasse pelos corredores com a luz apagada.


Seu governo durou pouco mais de um ano, mas rendeu frutos que sobreviveram às crises, aos golpes e às reformas que o Brasil coleciona como quem coleciona selos. As Escolas de Artífices, criadas por ele, foram o embrião dos atuais Institutos Federais.


A educação técnica — tão celebrada hoje e tão disputada por políticos em palanques — começou ali, pela caneta de um presidente que não parecia destinado ao papel de modernizador, mas que acabou sendo um. É irônico que um país tão hábil em importar modelos franceses e americanos em tantas áreas tenha conseguido inovar justamente com alguém que grande parte da elite nem queria ver no retrato.


Outro marco foi o Serviço de Proteção aos Índios, entregue a Cândido Rondon, militar e humanista que via os povos originários com respeito raro para a época. Os resultados ficaram longe do ideal, é verdade — o Brasil raramente aprendeu a lidar com suas próprias feridas —, mas a iniciativa inaugurou um debate nacional que só ganharia fôlego quase um século depois. Para uma administração tão breve, foi muita ousadia.


Mas talvez o aspecto mais revelador sobre Nilo Peçanha não esteja no que ele fez, e sim no que tentaram desfazer depois. A narrativa oficial preferiu ignorar o fato de que ele era afrodescendente, tratando sua origem como um detalhe inconveniente, uma sombra que atrapalhava o retrato de uma República supostamente refinada. A tentativa de branqueamento, literal e simbólica, diz muito mais sobre o Brasil da época — e sobre o Brasil de sempre — do que sobre o próprio presidente.


Não é exagero dizer que Nilo foi vítima de um apagamento duplo: primeiro por ter governado por um período curto, segundo por não se encaixar no perfil racial que os livros preferiram preservar. É curioso observar que, enquanto as narrativas sobre presidentes militares, aristocratas ou aventureiros republicanos rendem capítulos generosos, a história destinada ao primeiro — e até hoje único — presidente claramente identificado como negro parece escrita a lápis, pronta para ser apagada a qualquer momento.


Hoje, em tempos de revisões históricas e de disputas por memória, a figura de Nilo ressurgiu com força. Não apenas como símbolo, mas como metáfora de um país que insiste em esconder suas próprias origens africanas enquanto se proclama “miscigenado” com orgulho de cartório. Resgatar Nilo Peçanha não é um ajuste de contas com o passado; é uma forma de lembrar que a República não foi feita apenas por homens que cabem em molduras douradas.


Porque, no fundo, a pergunta mais incômoda continua ecoando: por que um país que teve um presidente negro tão cedo escolheu esquecê-lo por tanto tempo? Talvez porque reconhecer Nilo Peçanha significaria admitir que o Brasil sempre foi mais diverso do que sua elite tolerava. E porque assumir esse fato implicaria reescrever não apenas páginas da história, mas páginas da própria identidade nacional.


Ao recuperar sua trajetória, o Brasil faz mais do que homenagear um político competente: recupera um pedaço de si mesmo, aquele que a poeira da história tentou esconder por conveniência estética. Nilo Peçanha governou um país que não estava pronto para reconhecê-lo — mas talvez agora esteja pronto para finalmente enxergá-lo sem filtros, sem retoques e sem o apagamento que o acompanhou por mais de um século.


Marcelo Rossoni é jornalista

 
 
 

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