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O discurso do fascismo

  • 12 de fev.
  • 4 min de leitura

Lino Resende


O fascismo quase nunca se apresenta com esse nome. Não chega anunciando ditadura, censura ou violência explícita. Ao contrário, costuma surgir embalado em palavras simples, frases de efeito, imagens impactantes e promessas vagas de ordem e grandeza. Por isso, compreender o discurso fascista — mais do que seus símbolos históricos — é essencial para reconhecer como ele ressurge em momentos de tensão e polarização política, como o que vivemos hoje.


Walter Benjamin foi um dos primeiros pensadores a identificar esse mecanismo. Em meados da década de 1930, ao analisar o uso das novas tecnologias de comunicação pelos regimes autoritários europeus, ele observou que o fascismo não politiza as massas — ele as estetiza. Em vez de ampliar direitos ou promover mudanças sociais concretas, oferece uma sensação ilusória de participação por meio do espetáculo. A política deixa de ser um espaço de decisão coletiva e se transforma em encenação. Como escreveu Benjamin, o fascismo “permite que as massas se expressem, mas não lhes concede direitos”.


Essa ideia ajuda a entender por que o discurso fascista se apoia tanto na forma e tão pouco no conteúdo. O impacto visual, a frase provocativa, o gesto teatral passam a importar mais do que qualquer proposta consistente. Não se trata de convencer por meio de argumentos, mas de capturar pela emoção. O cidadão deixa de ser sujeito e se torna plateia.


Hannah Arendt, por sua vez, aprofundou outro elemento central desse tipo de discurso: sua relação com a verdade. Para ela, a propaganda totalitária não se limita à mentira comum. Seu objetivo mais profundo é corroer a própria ideia de verdade. Em Origens do Totalitarismo, Arendt observa que o ideal desses regimes não é fazer que todos acreditem em uma falsidade específica, mas criar um ambiente em que já não seja possível distinguir fato de invenção.


Quando isso acontece, o debate público entra em colapso. Se tudo pode ser mentira, nada pode ser discutido. Se toda informação é suspeita, toda crítica pode ser descartada como conspiração. O discurso fascista prospera nesse terreno instável, onde a confusão substitui o pensamento e o cinismo ocupa o lugar do julgamento.


Espetáculo e destruição da verdade foram pilares do nazismo e do fascismo histórico. Ambos investiram em cultos de personalidade, transformaram líderes em figuras quase míticas e recorreram à propaganda de massa para fabricar inimigos internos, simplificar problemas complexos e mobilizar emoções primárias como medo, ressentimento e raiva. O conteúdo importava menos do que a repetição e o impacto emocional.


O que torna esse diagnóstico inquietante é sua atualidade. Não vivemos, ao menos formalmente, sob regimes fascistas clássicos. Mas habitamos um ambiente político altamente polarizado, atravessado por redes sociais, comunicação instantânea e disputas simbólicas permanentes. Nesse cenário, muitos dos traços descritos por Benjamin e Arendt reaparecem, adaptados às tecnologias do presente.


Hoje, o espetáculo político acontece nas timelines, em vídeos curtos e declarações cuidadosamente calculadas para gerar indignação. A política se converte em performance contínua. Em vez de discutir projetos de país, disputa-se atenção. Em vez de buscar consenso, estimula-se o conflito. A lógica do “nós contra eles” ocupa o lugar do diálogo.


Paralelamente, a erosão da verdade se acelera. Informações falsas circulam com a mesma força — ou até mais — do que fatos verificáveis. Instituições que historicamente organizaram o debate público, como a imprensa, a universidade e a ciência, tornam-se alvo constante de deslegitimação. Como alertou Arendt, quando todas as fontes são desacreditadas, o indivíduo se isola, torna-se mais vulnerável e tende a aderir a narrativas simples, fechadas e autoritárias.


É importante dizer com clareza: isso não significa que toda posição conservadora ou toda corrente de direita seja fascista. Reduzir o fascismo a um rótulo ideológico empobrece o debate e obscurece o problema real. O fascismo, como mostram Benjamin e Arendt, é antes de tudo um modo de fazer política — um discurso que substitui ideias por espetáculo e verdade por manipulação.


O risco surge quando esse modo de operar passa a dominar o espaço público. Quando o debate deixa de tratar de políticas públicas e passa a girar em torno de lealdades emocionais. Quando a divergência vira traição. Quando a complexidade é vista como fraqueza e a agressividade como virtude.


Nesse ambiente, a troca de ideias se torna quase impossível. Não há espaço para nuances, revisões ou aprendizado mútuo. O debate se esvazia, porque já não busca compreensão, mas apenas vitória simbólica. O outro deixa de ser interlocutor e passa a ser inimigo.

Benjamin advertiu que a estetização da política conduz, no limite, à glorificação da violência. Arendt mostrou que a destruição da verdade abre caminho para o autoritarismo. Juntos, deixaram um alerta que permanece atual: quando a política vira espetáculo e a verdade perde valor, a democracia se fragiliza.


Reconhecer o discurso do fascismo hoje não é um exercício de nostalgia histórica. É uma necessidade concreta. Não para repetir eslogans, mas para defender aquilo que esse discurso tenta corroer: a possibilidade de pensar, discordar e debater em comum. Sem isso, resta apenas o ruído. E o ruído, como a história já demonstrou, é um terreno fértil para o autoritarismo.


Lino Resende é jornalista, escritor e mestre em História Política pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes)

 
 
 

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