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"Pede pra cagar e sai..."

  • 22 de jan.
  • 2 min de leitura

Marcelo Martins


Quando estava de olho, na paquera de dona patroa, Junia Lyrio, tinha um concorrente vizinho dela, chegado na família, em particular com minha futura sogra, a saudosa dona Arlita, que o admirava cheio de elogios ao rapaz. Calvo, barbinha bem feita, e futuro engenheiro.

Fiquei ensimesmado. Metidabundo, com se diz lá no nordeste baiano de alta cultura. Com ciúmes mesmo. Ele tinha o sobrenome Dias – não vou revelar o primeiro nome por reserva ética – mas passei a chamá-lo de “Calendário”.


Conto esse preâmbulo porque estamos diante de outro “Calendário”, esse sinistro: um ministro supremo chamado Dias Toffoli, que tem algum tempo pra continuar lá ou pedir o boné.


A autoridade de um ministro do Supremo Tribunal Federal não decorre apenas da toga, mas da confiança pública na sua independência, sobriedade e distanciamento de interesses privados e políticos.


Quando essa confiança se rompe, não há retórica jurídica que a restaure em público ou no privado entre os seus pares e, pior, no povo.


O ministro Dias Toffoli construiu sua trajetória muito mais nos corredores do poder político do que na magistratura de carreira. Sua ascensão ao STF foi resultado direto de articulações partidárias, fato notório e nunca negado.


Esse passado, por si só, não o desqualifica, pois todos foram assim, mas o torna permanentemente vulnerável a conflitos de interesse.


Nos últimos anos, porém, a sucessão de episódios controversos passou a pesar com força na opinião pública.


Decisões personalistas, protagonismo excessivo e, agora, o envolvimento indireto de familiares em um escândalo financeiro de grandes proporções, o chamado caso Master, lançam sombras sobre a atuação do ministro e levantam dúvidas legítimas sobre sua capacidade de se manter equidistante das investigações conduzidas pela Polícia Federal.


Ainda que não haja condenação ou prova definitiva contra o magistrado, o problema central já está posto: a imagem do Supremo se confunde com suspeitas, ruídos e desconfiança. E quando a Corte que deveria arbitrar os conflitos da República passa a ser vista como parte deles, o dano institucional é grave.


Em democracias maduras, há um gesto que não é sinal de culpa, mas de responsabilidade: o afastamento voluntário. Em alguns lugares, figurões se matam. Não queremos isso pro nosso ministro “Calendário”.


Não defendo atos extremados. Jamais! Às vezes, preservar a instituição exige apenas sacrificar o cargo, o poder que acha que tem.


Como dizem as arquibancadas populares dos estádios febris, inclusive de seu Palmeiras, meu clube em Sampa, com a crueza que falta aos palácios: “pede pra cagar e sai...”

Arrogante, ex-pobretão, duvido que largue o caso. Afinal, é sua única defesa.


Não é ofensa, é conselho. Para o bem da Suprema Corte, o último bastião da Democracia.

Para o bem do país de todos nós!


Marcelo Martins é jornalista e cronista

 
 
 

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