Uma mudança de era
- 13 de mar.
- 4 min de leitura
Lino Resende
A Wired, publicação focada em novas tecnologias e em seus usos, acaba de lançar uma edição inteira dedicada à China. Ao percorrer os diversos tópicos abordados, a revista faz uma provocação direta e desconfortável para aqueles que, no Ocidente, observam o país à distância e acompanham o que ocorre na geopolítica mundial, sobretudo a partir da nova presidência de Donald Trump.
A provocação é clara: o século chinês não é uma promessa futura — ele já começou. Ao fazer essa afirmação, a Wired alinha evidências do que pode ser chamado de uma mudança de era: tecnologia, energia, indústria, infraestrutura e até aspectos da cultura global já operam, em vários sentidos, segundo padrões definidos pela China. Daí surge uma questão central: até que ponto o avanço chinês já configura, de fato, uma mudança de era?
O que a própria Wired responde é que, em grande parte, a resposta é afirmativa. E a revista organiza esse argumento a partir de alguns eixos.
Centro da engrenagem tecnológica
Um dos pilares do argumento está na centralidade chinesa nas cadeias tecnológicas globais. Hoje, o país domina a produção de baterias, painéis solares, veículos elétricos, drones e uma parcela significativa dos componentes eletrônicos que sustentam a vida digital contemporânea. Não se trata apenas de fabricar a baixo custo, mas de produzir em escala, com velocidade, integração e domínio técnico.
Enquanto países ocidentais ainda debatem modelos de transição energética, incentivos industriais e disputas regulatórias, a China consolidou um ecossistema funcional de energia limpa, que já sustenta grande parte do seu consumo. De acordo com a Wired, o país instala, em poucos meses, mais capacidade solar do que muitas nações ocidentais em anos.
A consequência é direta: quem controla a produção controla o ritmo da transição.
No setor de veículos elétricos, essa assimetria torna-se ainda mais visível. Empresas chinesas produzem automóveis mais baratos, com baterias eficientes e ciclos de inovação acelerados. Nos Estados Unidos e na Europa, o carro elétrico ainda ocupa o lugar de produto premium. Na China, ele já é um bem de consumo de massa — e está sendo replicado ao redor do mundo.
O futuro em operação
Outro contraste enfatizado pela Wired está na infraestrutura física. Em poucas décadas, a China construiu a maior rede de trens de alta velocidade do planeta, conectando cidades médias e grandes centros industriais com rapidez e previsibilidade. O Ocidente — e, em especial, os Estados Unidos, ainda a maior potência mundial — permanece preso a sistemas envelhecidos, projetos inflacionados e disputas políticas prolongadas.
A China, sozinha, tem mais trens de alta velocidade que todas as outras nações do mundo juntas. Essa diferença vai muito além da estética ou da conveniência logística. Infraestrutura molda produtividade, integração territorial e competitividade econômica. Ao redesenhar seu território com base em conectividade e eficiência, a China amplia sua capacidade de coordenação econômica.
Europa e Estados Unidos já exerceram esse protagonismo no passado, mas hoje executam com menos fôlego e coesão.
Inovação sem romantização
A Wired também desmonta um dos clichês mais persistentes do discurso ocidental: a ideia de que a China apenas copia. O que se observa é um país que inova de maneira pragmática, sem o apego quase ideológico do Vale do Silício às narrativas de “disrupção” e genialidade individual.
Robôs humanoides, sistemas de reconhecimento visual, pagamentos digitais e plataformas logísticas avançam não porque são conceitualmente sedutores, mas porque funcionam em larga escala. A inovação chinesa não busca encantamento, mas operação contínua, eficiência, integração e adaptação rápida.
Enquanto empresas ocidentais frequentemente discutem a ética da inteligência artificial em painéis e conferências, empresas chinesas testam, implementam, ajustam e escalam. Isso não elimina dilemas éticos, mas desloca o eixo do poder tecnológico. Quem implementa primeiro tende a definir os padrões depois.
Cultura, consumo e influência silenciosa
O século chinês descrito pela Wired não se limita à indústria ou à tecnologia. Ele também se manifesta no cotidiano. Produtos, brinquedos, aplicativos, modas e hábitos de consumo chineses circulam globalmente, muitas vezes sem que o consumidor perceba sua origem.
Diferentemente da hegemonia cultural americana do século XX — explícita, aspiracional e ancorada em símbolos —, a influência chinesa é mais discreta. Ela se infiltra pelo preço, pela escala e pela ubiquidade. A China, aparentemente, não quer vender sonho, mas acesso.
Um exemplo claro está no Brasil, com plataformas de e-commerce como AliExpress e Shein, além dos veículos elétricos chineses que começam a ganhar espaço no mercado.
O Ocidente ainda lidera, mas não sozinho
Ao reconhecer o protagonismo da China, a Wired não sustenta que o Ocidente tenha se tornado irrelevante. Estados Unidos e Europa continuam dominantes em universidades de ponta, pesquisa científica básica, soft power cultural e centros financeiros globais. O dólar segue como principal moeda internacional, e empresas americanas ainda lideram setores estratégicos como software e semicondutores avançados.
Ainda assim, o fosso entre o Ocidente e a China vem diminuindo. Estudo do Australian Strategic Policy Institute (ASPI) aponta o domínio chinês no desenvolvimento e na pesquisa de tecnologias consideradas cruciais para o futuro — chegando, em alguns casos, a cerca de 90%.
O que a revista sugere é que a diferença crucial entre China e Ocidente está no ritmo, na coordenação e na execução. O avanço chinês é sistêmico porque reúne Estado, indústria e planejamento operando de forma alinhada. Nesse modelo, o Estado define prioridades e frequentemente financia sua implementação. No Ocidente, ao contrário, inovação, política e interesses econômicos muitas vezes colidem em vez de convergir.
Estamos, afinal, no século chinês?
A Wired conclui, de forma implícita, que a pergunta não pode ser respondida com um simples “sim”. O argumento é que vivemos em um mundo multipolar, mas com uma novidade histórica: desde a Revolução Industrial, o eixo central da produção material e da infraestrutura global nunca esteve tão deslocado do Ocidente quanto agora.
Ao reconhecer essa mudança, a revista não afirma que a China “venceu” nem que o Ocidente “perdeu”. O que sugere é que o mundo já opera, em muitos níveis, segundo capacidades chinesas — especialmente naquilo que sustenta a vida moderna: energia, transporte, manufatura e tecnologia aplicada.
O século XXI, como indica a publicação, não será exclusivamente chinês, mas tampouco pode ser compreendido sem a China no centro. Ignorar esse fato é insistir em uma fotografia antiga de um mundo que já mudou.
A provocação da Wired cumpre seu papel: força o abandono de previsões confortáveis e a observação do presente. E o presente, gostemos ou não, já fala mandarim em muitos de seus sistemas essenciais.
Lino Resende é jornalista, escritor e mestre em História Política pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).
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