A era da revanche digital
- há 5 dias
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Lino Resende
O período do século em que vivemos é chamado por Andrea Rizzi de era da revanche. Ele a classifica como um período em que frustrações acumuladas se transformaram em ação política, disputas entre países e conflitos sociais abertos. Não é um fenômeno isolado, nem restrito a um país. É um movimento amplo, visível em vários continentes, que questiona a ordem criada após o fim da Guerra Fria e coloca as democracias liberais sob pressão.

O ponto de partida de Rizzi é o fracasso das promessas da globalização. Por décadas, governos e elites econômicas defenderam que a abertura de mercados, o avanço tecnológico e a integração global trariam prosperidade para todos. Em uma parte do mundo, que é a menor, isso realmente aconteceu. Em outra, bem maior, o resultado foi trabalho mais precário, perda de referência econômica e sensação de abandono.
Um bom exemplo foi o fechamento de fábricas no chamado cinturão industrial dos Estados Unidos. Outro, o enfraquecimento da indústria tradicional em regiões da França e da Itália. O resultado foi a estagnação salarial em países desenvolvidos, que são exemplos claros do que aconteceu em várias partes do mundo. Daí o surgimento de focos de ressentimento político, que ganhou expressão nas urnas.
A eleição de Donald Trump, em 2016, foi um marco dessa revanche social: eleitores que se sentiam excluídos do progresso global decidiram romper com o sistema político, apostando em confronto, protecionismo e rejeição às elites. Algo semelhante ocorreu na Europa, com o Brexit no Reino Unido e a ascensão de partidos nacionalistas e de extrema direita em países como Hungria, Polônia e Itália. Em todos esses casos, a promessa central era devolver poder a quem acredita tê-lo perdido, mesmo que enfraquecesse as instituições, relativizasse direitos ou atropelasse as regras democráticas.
A era da revanche, de acordo com Rizzi, não se limita à política interna de países. No cenário mundial, ela aparece como reação ao domínio ocidental, configurado, aqui, principalmente, pela dominação dos Estados Unidos. A Rússia, sob Vladimir Putin, transformou a perda de status pós-União Soviética em projeto político. A invasão da Ucrânia, em 2022, não pode ser vista apenas como disputa territorial, mas como gesto de revanche histórica, alimentado pela narrativa de humilhação e cerco pelo Ocidente. A guerra expôs a fragilidade dos mecanismos multilaterais e revelou um mundo menos disposto a seguir regras comuns.
A China representa outro tipo de revanche. Diferentemente da Rússia, Pequim aposta menos na ruptura direta e mais na substituição gradual da ordem atual. A expansão da Nova Rota da Seda, o avanço tecnológico e a disputa por influência no Sul Global mostram a tentativa de reequilibrar o poder mundial em favor de um modelo que desafia a centralidade liberal do Ocidente. A tensão em torno de Taiwan e a crescente rivalidade com os Estados Unidos são sinais dessa mudança.
Outro ponto central é o papel da comunicação digital na ampliação da revanche. Redes sociais e plataformas online funcionam como amplificadores de indignação, reduzindo temas complexos a narrativas simples de inimigos e culpados. A invasão do Capitólio, em janeiro de 2021, e a disseminação de desinformação em eleições na América Latina e na Europa mostram como a frustração social pode se tornar explosiva quando combinada com tecnologia de alcance massivo.
As consequências são preocupantes. As democracias ficam mais frágeis, o debate público empobrece e a cooperação cede espaço à lógica da força, como mostram as ações tomadas pelo presidente Donald Trump na Venezuela e no Irã. No entanto, antes disso, a pandemia de covid-19 já havia evidenciado essa mudança. Em vez de coordenação global, houve disputa por vacinas, fechamento de fronteiras e uso político da crise sanitária. A revanche assumiu a forma de nacionalismo e desconfiança entre países.
Ainda assim, Rizzi não fala em destino inevitável. Ao apontar fatores estruturais — desigualdade persistente, falhas de representação, perda de confiança nas instituições e mudança no equilíbrio de poder global — ele sugere que entender a revanche é o primeiro passo para contê-la. A saída não é negar o descontentamento, mas enfrentá-lo com políticas que reconstruam laços sociais, ampliem oportunidades e recuperem a credibilidade do Estado.
No mundo atual, marcado por guerras regionais, polarização e incerteza econômica, a era da revanche deixou de ser conceito para se tornar experiência diária. O grande desafio é impedir que o desejo de acertar contas com o passado comprometa o futuro. Entre a tentação da vingança e a reconstrução de consensos mínimos, as sociedades caminham em terreno instável, em que a lucidez política pode ser a única forma de evitar que o ressentimento se torne regra permanente e acabe comprometendo o futuro.
Lino Resende é jornalista, escritor e mestre em História Política pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).



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