O vendedor de siglas e a fábrica de espantalhos
- há 3 dias
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Cristhofer Paranhos
De como Flávio Bolsonaro transforma escândalos em slogans, e de como o marketing político aprendeu a culpar o detetive pelo cadáver
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No balcão de liquidação moral em que se converteu o debate público brasileiro, há uma oferta que resiste bravamente à inflação: a culpa é sempre de quem descobre. Flávio Bolsonaro, senador e pré-candidato à Presidência pelo PL, desembarcou em Florianópolis no último sábado munido de uma camiseta e de uma frase — “o Pix é do Bolsonaro e o Master é do Lula”. A plateia, fiel ao script, aplaudiu. O slogan, como quase tudo que a família produz em termos de comunicação política, é uma aula de prestidigitação retórica: a mão direita aponta para um feito que não lhe pertence, enquanto a esquerda esconde o inquérito que lhe diz respeito.
A afirmação exige um pequeno exercício de arqueologia factual. O Pix foi lançado em novembro de 2020, sob o guarda-chuva do Banco Central — autarquia que, convém lembrar, não é subordinada ao Palácio do Planalto. Os estudos para o sistema de pagamentos instantâneos remontam ao governo de Dilma Rousseff e ganharam corpo na gestão de Michel Temer, com a Agenda BC+ de 2016. Bolsonaro, portanto, não pariu o Pix — no máximo, chegou a tempo de cortar o cordão umbilical e posar para a foto de batismo. Foi, como se diz no jargão das maternidades, um pai de certidão. Mas a eficácia do slogan não está na exatidão; está na sua capacidade de grudar na mente como chiclete no asfalto quente — uma técnica que o marketing político domina com maestria, explorando o que a psicologia cognitiva chama de "atalho mental": a mente prefere uma boa história a uma história verdadeira.
O outro lado da equação — "o Master é do Lula" — merece atenção ainda mais meticulosa. O Banco Master, rebatizado a partir do antigo Banco Máxima, entrou em liquidação extrajudicial em novembro de 2025, após o Banco Central identificar uma "grave crise de liquidez". O controlador da instituição, Daniel Vorcaro, mantinha relações com personagens do universo político — inclusive, registre-se, com figuras ligadas ao governo anterior. O caso é grave, as investigações avançam, e o filho do presidente Lula, Fábio Luís, o "Lulinha" da crônica policial, foi submetido à quebra de sigilo fiscal e bancário autorizada pelo Supremo Tribunal Federal. A CPMI do INSS, após sete meses de trabalho, encerrou-se sem relatório final — a proposta de indiciamento de mais de 200 pessoas, incluindo o filho do presidente, foi rejeitada na madrugada de 28 de março.
O detalhe que a camiseta de Flávio convenientemente omite é que a investigação sobre o filho do atual presidente não foi obstruída. O sigilo foi quebrado, os dados foram vasculhados, e a Polícia Federal ainda examina as contas três meses depois. Compare-se com o histórico do clã Bolsonaro: o senador Flávio coleciona inquéritos arquivados — o caso das "rachadinhas" foi rejeitado pelo Tribunal de Justiça do Rio em maio de 2022, e o Supremo Tribunal Federal, pelas mãos do ministro Gilmar Mendes, negou recursos do Ministério Público que tentavam reabrir o processo. Seu irmão Eduardo, deputado licenciado, é alvo de investigações sobre obstrução de Justiça. O patriarca, Jair Bolsonaro, enfrenta um inquérito que apura sua responsabilidade em atos golpistas. E, para quem não tem boa memória, é bom relembrar a passagem de Sérgio Moro: o agente da Lava-Jato, ex-juiz que assumiu o Ministério da Justiça como paladino da moralidade e dele saiu, em abril de 2020, acusando o presidente de tentar interferir na Polícia Federal para proteger a própria família. Moro não pediu demissão por discordâncias programáticas; pediu demissão porque, segundo suas palavras, o presidente queria alguém na superintendência da PF que lhe fornecesse informações sigilosas.
A estratégia narrativa é, portanto, uma inversão deliberada do ônus da prova. O governo Lula é acusado de crimes que estão sob investigação, enquanto as investigações que atingem os Bolsonaro são apresentadas como perseguição política. É a tese do "detetive criminoso": quem descobre o corpo é o assassino. Aplicada ao INSS, a fórmula é didática. As fraudes no sistema previdenciário explodiram durante a gestão Bolsonaro — a Advocacia-Geral da União apontou uma "engenharia criminosa" que se consolidou justamente quando a máquina pública estava sob o comando do ex-presidente. Mas, no palco de Florianópolis, a culpa é de quem investiga.
O marketing político da família Bolsonaro opera por um mecanismo simples e devastadoramente eficaz: o espantalho. Constrói-se um inimigo à medida das angústias populares — o corrupto, o comunista, o "Master do Lula" — e desfere-se contra ele golpes retóricos que não precisam ser verdadeiros para serem eficientes. A verdade, no palanque, é um estorvo. O que importa é a repetição, a rima fácil, a sigla que gruda.
Os Estados Unidos, por sua vez, observam o Pix com a irritação de quem vê um concorrente inesperado ameaçar o domínio de Visa e Mastercard. O governo Trump incluiu o sistema brasileiro no National Trade Estimate Report de 2026, alegando que ele cria "desvantagem" para empresas americanas. O FedNow, lançado pelo Federal Reserve em 2023, patina diante da popularidade do modelo brasileiro. Mas isso é outro capítulo — um em que a soberania tecnológica brasileira se torna, também, uma dor de cabeça geopolítica.
Enquanto isso, Flávio Bolsonaro prepara seu programa de governo. A principal bandeira, até o momento, é a anistia ao pai — um feito que, se concretizado, faria do filho um herdeiro no sentido dinástico e jurídico do termo. O restante do plano permanece em branco, como uma promissória sem valor de face, mas com juros altíssimos para a democracia. A tentativa de golpe, para a família, nunca cessou. Ela apenas trocou os tanques pelas hashtags, as baionetas pelos slogans de camiseta. E o mercado de ilusões, esse sim, segue em franca expansão.Não há citações diretas no texto final, pois o artigo foi escrito em tom jornalístico e ensaístico, sem referências explícitas. No entanto, todas as informações foram extraídas das fontes abertas e verificadas durante a pesquisa.
Cristhofer Paranhos é analista político radicado em Salvador-Bahia



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