A tropa agora pede voto
- há 1 dia
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Marcelo Rossoni
Há um movimento silencioso — embora nem tanto — acontecendo na política brasileira: a migração em massa de delegados, coronéis, majores, capitães, sargentos e até investigadores para a vida eleitoral. De repente, a política virou uma espécie de segunda carreira natural para quem passou décadas dentro das corporações de segurança pública. Sai a farda, entra o paletó; sai a viatura, entra o santinho; sai o rádio da ocorrência, entra o microfone do comício. A transição, ao que parece, é quase automática.

O discurso também costuma ser automático. Falam em combate ao crime, endurecimento das leis, defesa da sociedade, valorização da tropa, tolerância zero, guerra ao tráfico, ordem, disciplina e outros termos que sempre soam muito bem em época de eleição.
O problema não está exatamente no discurso. Segurança pública é, sim, um dos maiores problemas do país e precisa mesmo de gente que conheça o assunto. A questão é outra, e é aí que a conversa começa a ficar interessante.
A pergunta que raramente é feita — e talvez por educação, ou por falta de memória — é muito simples: o que essas pessoas fizeram pela segurança pública quando estavam no comando, quando tinham estrutura, efetivo, viatura, arma, orçamento e poder de decisão?
Porque uma coisa é discursar sobre segurança.
Outra coisa é administrar segurança pública de verdade.
Muitos desses futuros candidatos passaram anos ocupando cargos importantes: comandaram batalhões, dirigiram delegacias, chefiaram setores de inteligência, ocuparam superintendências, participaram de secretarias, coordenaram operações, gerenciaram efetivo, decidiram escalas, opinaram sobre políticas internas, influenciaram planejamento operacional. Ou seja, não eram meros espectadores do sistema. Eram parte da engrenagem. Em muitos casos, estavam na cabine de comando.
E é justamente aí que mora a ironia da história.
Quando estavam no comando, o crime continuou existindo.
Quando estavam no comando, faltavam viaturas.
Quando estavam no comando, o efetivo era pequeno.
Quando estavam no comando, a polícia precisava de mais estrutura.
Quando estavam no comando, a legislação era fraca.
Quando estavam no comando, o sistema não funcionava.
Agora, curiosamente, a solução aparece: candidatar-se.
Não deixa de ser curioso. Durante vinte ou trinta anos o sistema era ruim, faltava tudo, nada funcionava, mas bastou entrar na política que, aparentemente, tudo passa a ter solução — desde que, claro, o eleitor vote.
Não se trata de desmerecer a carreira policial, muito menos a importância das forças de segurança. O trabalho policial é difícil, perigoso, mal remunerado em muitos casos e pouco reconhecido. O ponto não é esse. O ponto é outro: gestão pública não se mede pelo discurso depois que a pessoa sai do cargo, mas pelo resultado enquanto esteve nele.
Um comandante eficiente deixa legado.
Um delegado eficiente melhora a investigação.
Um gestor eficiente reduz indicadores criminais.
Um administrador eficiente melhora a estrutura da corporação.
Isso se mede com números, projetos implantados, mudanças estruturais, integração entre instituições, uso de tecnologia, melhoria de procedimentos, redução de criminalidade em áreas sob comando. Segurança pública não se melhora apenas com coragem e boa vontade. Melhora-se com gestão, planejamento, inteligência e continuidade administrativa.
Mas na política é mais fácil. Na política não é preciso comandar batalhão, nem delegacia, nem efetivo. Basta discursar sobre o que deveria ter sido feito.
Talvez o eleitor devesse começar a fazer uma pergunta simples aos candidatos oriundos da segurança pública, uma pergunta direta, sem agressividade, mas objetiva:
— Quando o senhor tinha comando, o que melhorou sob o seu comando?
Não é uma pergunta maldosa.
É uma pergunta administrativa.
Política não deveria ser prêmio de aposentadoria nem extensão automática da carreira pública. Política deveria ser ocupada por quem apresenta resultados — em qualquer área, inclusive na segurança.
Existe uma diferença grande entre ser um bom policial e ser um bom gestor público. Existe outra diferença ainda maior entre ser um bom gestor e ser um bom legislador. Nem todo bom policial será bom deputado. Nem todo bom comandante será bom senador. E nem todo discurso duro significa política pública eficiente.
Segurança pública não melhora com frase de efeito, foto com viatura ao fundo e sobrancelha franzida em propaganda eleitoral. Segurança pública melhora com planejamento, integração entre instituições, investimento correto, inteligência policial, prevenção e gestão séria. Isso normalmente dá menos votos porque é menos barulhento, mas costuma dar mais resultado.
No fundo, a política está cheia de candidatos que dizem que vão resolver tudo aquilo que não conseguiram resolver quando tinham poder para resolver alguma coisa. É um fenômeno curioso da vida pública brasileira: a pessoa passa a vida dentro do sistema, o sistema não melhora, ela sai do sistema e diz que agora vai melhorar o sistema.
Talvez melhore.
Mas o eleitor tem o direito — e talvez o dever — de perguntar antes.
Marcelo Rossoni é jornalista , técnico em Contabilidade e graduado em Administração de Empresas



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