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A ideia do “obsoletariado”

  • há 2 dias
  • 3 min de leitura

Lino Resende


Será que a inteligência artificial vai criar um novo tipo de classe social no mundo?


Diante do clima catastrófico para o trabalho assalariado que as previsões de uso das IAs têm nos mostrado, é atual discutir a questão, e Álvaro Machado Dias, um dos articulistas da Folha de S. Paulo apresentou a ideia do “obsoletariado”, que, especula, pode ser a consequência do uso intensivo das chamadas inteligências artificiais.


A ideia faz sentido, mas, como muitas outras relacionadas ao assunto, é uma especulação do futuro e, como sabemos, previsões do futuro quase sempre são erradas. O que Álvaro discute é a possibilidade de um grande contingente de mão de obra, principalmente aquela que não tem especialização e está na parte de baixo da escola de salários. Ser atingido pela mudança que, se as previsões se concretizarem, as IAs vão provocar.


O argumento básico é que o uso da nova tecnologia vai transformar o trabalho e, ao fazê-lo, tornará grandes contingentes de pessoas estruturalmente inúteis para a economia. Se vai acontecer, ninguém sabe. As discussões do tema se focam no futuro e, nele, na possibilidade das habilidades de trabalhadores. Como consequência, vem a pergunta: será que o que eu faço se tornará obsoleto?


Nasce, aí, o novo termo: obsoletariado. O argumento de Álvaro Machado Dias, ao levantar a premissa, parte de uma analogia histórica e ambiciosa: a Roma republicana em que a escravidão em massa teria funcionado como forma primitiva de automação. Ele lembra que a consequência deste tipo de escravidão foi a concentração de riqueza, que foi corroendo a classe média agrária, concentrando riqueza e abrindo caminho para a dependência estatal e o colapso institucional.


É uma ideia assustadora, mas os dados atuais não validam a previsão. Não se pode negar que a inteligência artificial já afeta o mercado de trabalho, sobretudo em ocupações administrativas, rotineiras e de entrada. Estudos da OCDE e do Fórum Econômico Mundial indicam que uma parcela relevante dos empregos existentes terá tarefas automatizadas nos próximos anos. Para quem está no início da carreira, isso não é uma abstração: são estágios que desaparecem, funções júnior que encolhem e trajetórias que se tornam mais incertas antes mesmo de começarem.


Esse pano de fundo ajuda a entender a preocupação com os chamados NEETs — jovens que não estudam nem trabalham, que seriam os mais atingidos. Como não têm especialização, eles seriam mais atingidos pela mudança, com a IA intensificando as fragilidades já existentes. No entanto, não é ela a origem do problema. O fato é que, sim, há uma perspectiva, mas não há dados suficientes que permitam extrapolar para o futuro.


O ponto mais controverso da tese do obsoletariado é a ideia de uma perda estrutural de interesse do capital pelo trabalho humano. Aqui, os números pedem cautela. Projeções amplamente citadas indicam que, ao mesmo tempo em que a automação pode eliminar milhões de postos, ela tende também a criar um número ainda maior de novas ocupações. Não se trata de otimismo ingênuo, mas de um padrão histórico: revoluções tecnológicas anteriores, da mecanização industrial à informatização, destruíram empregos específicos, mas expandiram o volume total de trabalho ao criar novos setores, produtos e necessidades.

Isso não significa que o impacto seja neutro ou indolor. Os novos postos costumam exigir qualificações diferentes e mais complexas, o que gera um descompasso real entre quem perde e quem ganha. É nesse intervalo que surgem frustrações sociais, sensação de descarte e perda de sentido, um terreno fértil para ressentimentos e discursos populistas. O alerta do articulista é pertinente: o perigo não está na inexistência de trabalho, mas na falha coletiva em oferecer caminhos de transição viáveis e dignos.


Também é preciso relativizar a ideia que o consumo deixará de ser sustentado pelos salários. Até agora, mesmo em economias altamente digitalizadas, o trabalho segue sendo a principal fonte de renda das famílias. O que se observa é uma pressão crescente por políticas de proteção, redistribuição e regulação, não um abandono completo do modelo baseado no emprego. Propostas como a renda básica ganham espaço no debate justamente como complemento, criando uma rede de segurança e não como substituição integral da economia do trabalho.


No horizonte, portanto, o “obsoletariado” não aparece como um destino inevitável, mas como um risco político e social condicionado a escolhas coletivas. A inovação tecnológica, por si só, não condena populações à irrelevância econômica. O que pode produzir esse efeito é a combinação de tecnologia acelerada com sistemas educacionais lentos, mercados de trabalho excludentes e Estados incapazes de amortecer transições.


Roma não caiu apenas porque mudou sua base produtiva, mas porque falhou em reinventar suas instituições. A história, mais do que um aviso fatalista, impõe uma responsabilidade.


Lino Geraldo Resende é jornalista, escritor e mestre em História Política pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).

 
 
 

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