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A Noite dos Desesperados

  • Foto do escritor: Marcelo Rossoni
    Marcelo Rossoni
  • há 3 dias
  • 3 min de leitura

Marcelo Rossoni


Em A Noite dos Desesperados (1969), o cinema norte-americano decidiu parar de fingir delicadeza e expôs, sem filtros, uma engrenagem que prefere não ser nomeada: a transformação da miséria em entretenimento. Dirigido por Sydney Pollack, o filme não pede empatia — exige desconforto. Não oferece heróis — apresenta sobreviventes. E não promete redenção — apenas continuidade, enquanto houver público disposto a assistir.


Ambientado na década de 1930, em plena Grande Depressão, o enredo acompanha uma maratona de dança que reúne desempregados, desesperados e esperançosos profissionais da última oportunidade. O prêmio em dinheiro é a promessa que atrai os participantes — um chamariz financeiro que faz parecer razoável aceitar quase qualquer regra. A pista circular é a armadilha. Dança-se por dias, semanas, até que o corpo, traído pela própria biologia, desista. Quem cai, sai. Quem sai, some. Não há aplauso para o fim — apenas para a resistência prolongada.


O evento não é esportivo, nem cultural. É um espetáculo de desgaste, cuidadosamente calibrado para manter o interesse da plateia. Quando a monotonia ameaça substituir a excitação, entram os chamados “momentos especiais”. O mais cruel deles é a corrida de derby — uma prova curta, abrupta, criada exclusivamente para reacender o entusiasmo do público. Nela, competidores já extremamente cansados são obrigados a correr em alta velocidade, mesmo após dias sem descanso adequado. Os últimos colocados são eliminados imediatamente.


Não se mede preparo físico nem habilidade: mede-se quem quebra primeiro. A expressão “derby”, usada no esporte para designar disputas rápidas e decisivas, ganha aqui um sentido perverso — acelera-se o sofrimento humano para produzir tensão, queda e descarte diante da plateia.


Nada disso acontece por impulso. O roteiro de James Poe e Robert E. Thompson, baseado no romance de Horace McCoy, constrói um sistema perfeito de exploração consentida. As regras são flexíveis, os discursos são motivacionais, as punições são apresentadas como “parte do jogo”. A violência nunca é explícita — o que a torna ainda mais eficaz. O público ri, torce, aposta, comenta. A plateia não é cúmplice por omissão, mas por engajamento ativo.


No centro do colapso moral está a espetacular atriz Jane Fonda, em um dos papéis mais desconfortáveis de sua carreira. Sua personagem não pede colo, não busca superação e não acredita em finais edificantes. Ela entende, com clareza brutal, que a maratona não é um caminho de ascensão, mas uma vitrine temporária de humilhação organizada. Sua lucidez é tratada como defeito. Em um ambiente que exige esperança performática, pensar demais vira risco.


Ao redor dela desfila um inventário de fragilidades: o homem machucado que insiste em continuar porque desistir custa mais caro; a mulher grávida transformada em curiosidade de palco; os casais improvisados menos por afeto do que por necessidade de sobrevivência. Tudo ali é transitório — inclusive a dignidade. Enquanto houver público, a maratona segue. Quando o interesse cai, acelera-se o ritmo. Entra a corrida de derby. Sai quem não aguenta.


O apresentador, interpretado por Gig Young, é a face polida da crueldade. Não grita, não ameaça, não empurra. Ele conduz. Com voz segura e sorriso treinado, transforma sofrimento em narrativa, queda em clímax, colapso em entretenimento. Sua função não é ferir, mas explicar por que ferir é necessário. O sistema agradece.


Visto hoje, A Noite dos Desesperados impressiona menos como documento histórico e mais como antecipação cultural. A pista circular é um modelo. A exaustão como atração é um método. O público como juiz moral é a engrenagem central. Tudo isso atravessou décadas com notável capacidade de adaptação.


E aqui cabe uma observação final — sem analogias forçadas, mera coincidência cultural. Programas de confinamento contemporâneos também operam por resistência prolongada, desgaste emocional, vigilância permanente e eliminações periódicas. No atual Big Brother Brasil, exibido pela TV Globo, o cenário é outro, a estética é mais limpa e o discurso fala em jogo, estratégia e protagonismo. Ainda assim, o princípio é reconhecível: quem cansa perde, quem desagrada sai, quem sofre rende narrativa.


Se em A Noite dos Desesperados dançava-se para não morrer de fome, hoje compete-se para não desaparecer no algoritmo. A pista virou casa. A corrida de derby virou prova de resistência. A eliminação virou paredão. Coincidência, claro. O espetáculo trocou de figurino, não de lógica. E o público — atento, participativo e confiante em sua neutralidade — continua aplaudindo enquanto a exaustão humana, bem iluminada, segue entregando bons números de audiência.


Marcelo Rossoni é jornalista

 
 
 

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