Tempos cruéis e os insensatos
- Álvaro Silva

- há 3 dias
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Álvaro Silva
"Chegou a época dos predadores", diz Giuliano Da Empoli sobre os tempos mais recentes, esses que se vive depois do retorno de Donald Trump à Casa Branca. Hoje, para os novos fascistas não existe mais multilateralismo, organizações supranacionais - como a ONU -, nada disso. Vale a lei do mais forte, a daquele que pode enviar uma determinação da Casa Branca ao mar e destinar a determinado território do mundo um dos porta-aviões nucleares que os Estados Unidos possuem. Para o professor da Universidade Autônoma de Barcelona, Steven Forti, lembrado num brilhante artigo intitulado "Novo Mapa Geopolítico", de autoria de nosso Frei Beto, foi inaugurada uma nova era. Volta à cena o mundo de ontem.
Por si só esse fato deveria ser motivo para reflexões, discussões sérias e busca de saídas que permitam ao mundo outrora chamado "livre" continuar sua trajetória num planeta terra onde as leis internacionais e as fronteiras entre países não são mais respeitadas todos os dias. Mas não. Somos obrigados a ver diariamente, ao vivo e a cores pela TV, um imbecil de nome Nikolas Ferreira, cercado por muitos outros de igual falta de nível, desfilar por rodovia à frente de uma espécie de passeata sem sentido e que termina em Brasília onde uma chuva torrencial quase provoca tragédia quando uma descarga elétrica atinge a nau dos insensatos (foto).
Criança, morando em São Paulo, recordo-me de um dia em que a garotada foi chamada para assistir a uma palestra de autoridades sobre clima. Havia ameaça de chuva forte em terras paulistas e lá esses riscos devem ser levados a sério. No Ipê Clube fomos orientados a, durante tempestade, nos afastarmos de postes, outras elevadações, cercas ou proteções de metal, enfim, qualquer objeto que pudesse atrair as desgargas elétricas conhecidas como raios. Nunca me esqueci daquilo. Mas não os idiotas que Nikolas capitaneava. E o tempo rugiu!
Nem de longe esse rugido se compara ao que estamos vivendo no plano internacional. Mas preocupa ver cerca de 18 mil pessoas - segundo estimativas - reunidas debaixo de temporal para protestar contra a prisão de um ex-presidente criminoso que tentou dar um golpe de Estado e buscando mais uma vez fazerem acampamentos de protesto, agora em frente à penitenciária de Brasília, onde está o energúmeno. Felizmente foram contidos.
Felizmente também ontem o presidente da República do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, ficou cerca de 50 minutos ao telefone com Trump. Diplomaticamente, falando de Palestina, Venezuela e talvez de outros assuntos. Diplomaticamente, debatendo um com psicopata sobre política internacional e, ao final disso, marcando um encontro entre ambos a Casa Branca. Vai dar resultado? Talvez não porque as razões subterrâneas e subalternas que movem a política internacional atual são difíceis de serem removidas. Mas essa - o diálogo e a tentativa de convencimento - é a única forma civilizada de isso ser tentado.
Ao mesmo tempo em que esse diálogo acontecia, numa região da Papuda cercada de restrições e atividade policial, o deputado movia sua nau dos insensatos. Eles nunca falam de saúde - e os feridos pelos raio foram atendidos pelo SUS -, educação, meio ambiente, infraestrutura, segurança pública - sem assassinatos -, pleno emperego, nada disso. Querem anistia para tentar o golpe outra vez. Perseguem a continuação desses tempos cruéis em todo o mundo porque aqui podem levar seus projetos (sic!) ao gado que os apoia e buscar um meio de voltar ao poder para mais uma vez usá-lo em benefício das elites que os sustentam.
É o que sabem fazer.
Álvaro Silva é jornalista e escritor



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