No mangue dum avô fascista!
- Marcelo Martins

- há 5 dias
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Marcelo Martins
Na minha família, a história não veio limpa, alinhada ou heroica. Veio torta, como quase tudo que é humano. Veio com contradições, silêncios e um barracão improvisado no meio de um mangue urbano. Digo isso com total tranquilidade.
Meu avô, pai de minha mãe, de minhas tias e um tio, foi funcionário público do Ministério da Saúde, em tempos de Getúlio Vargas, quando o mundo ardia na Segunda Grande Guerra. Em Vitória, no coração da cidade, ele trabalhava defendendo o indefensável.
Era do “Anauê”, o bordão integralista do líder ultraconservador, Plínio Salgado, de triste memória.
Nazifascista convicto, o velho riscava mapas do teatro de guerra nas paredes de sua sala com giz escolar. Explicava com entusiasmo didático como a Europa cairia, como a Rússia seria tomada, como depois viria a América.
Sonhava acordado com a vitória do horror.
Caçula, não o conheci. Nem meus irmãos e irmãs, pois o tempo não deixou chegar. Conheço-o apenas pela memória oral, esse arquivo frágil que passa de boca em boca, sempre tremendo um pouco.
Quando o mundo mudou, e mudou rápido, o sonho virou pesadelo. O nazifascismo caiu, e com ele veio a fúria popular. Em toda parte houve revolta.
Em Vitória (ES) também. A cidade pequena, que tudo vê, sabia quem eram os simpatizantes, os colaboradores, os entusiasmados pelo autoritarismo além mar.
A turba de trabalhadores civis queria vingança. Linchamentos, torturas, sangue. Queriam destruir a fábrica Chocolates Garoto, dos alemães Meyerfreund, impedida pelo então prefeito de Vila Velha, Eugênio Pacheco de Queiróz, que convocou o Exército para impedir o quebra-quebra. Conseguiu.
Partiram pra cima dos Zardini, uma família da alfaiataria, cuja oficina e loja de tecidos ficava ali na Vila Rubim, em Vitória.
Papai era cliente da “Casa Zardini”, onde fazia seus ternos e calças de linho impecáveis.
Assumiu o comando do movimento e, sobre um banquinho improvisado, com sua voz alta, altíssima, impediu a ação dos companheiros, com uma frase: “Esses galegos fugiram de Mussolini. São brasileiros como nós...” Convenceu.
Mas, o velho vovô do Anauê também estava marcado. Na mira dos revoltosos.
Foi então que minha mãe entrou em cena. Enfermeira da Santa Casa, jovem, mulher num mundo duro. Diante do marido, meu pai, que era liderança daquela reação popular, ela fez o que só o amor e a ética permitem: pediu misericórdia.
“Não deixe que matem papai".
Meu pai, homem fibroso, líder inflamado, apaixonado por aquela mulher (na foto, abaixo), hesitou. Jamais defendeu o fascismo. Mas defendia a vida. E isso é mais difícil.
Escondeu o sogro. Não num porão confortável, não numa casa segura. Mas, num barracão emprestado, enfiado num manguezal de Maruípe, lugar de lama, mosquitos e silêncio.
Ali o velho vô ficou meses, invisível, reduzido à própria pequenez. Meu pai levava marmita em potes de alumínio, feita por vovó Dindinha e embalada por mamãe. Meu pai, como me contou na varanda de casa, não levava discursos. Não levava perdão.
- Olhava pra ele, filho, aquele homem amulatado e fachista...” dizia papai no linguajar muito próprio dele de baiano raiz. E aí perguntei: “ele era mulato, papai?
- Mulatinho metido a branco... respondeu com um piscar de olho.
Quando a poeira baixou, a fúria cansou, o velho voltou para casa. Não voltou vencedor. Voltou alquebrado. A saúde, a moral, a fé na própria história, tudo em frangalhos. Pouco depois, morreu.
E é curioso: apesar de tudo, não foi ele quem deixou a herança mais forte. O que ficou em casa não foi o giz riscando mapas de conquista de guerras, mas o gesto de esconder um inimigo para que não fosse morto impiedosamente.
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Jamais aprendemos o nazifascismo lá em casa. Aprendemos a solidariedade. Não herdamos o ódio. Nossa herança de papai e mamãe é a recusa do ódio. Qualquer coisa odiosa.
Cresci entendendo que socialismo não é vingança, que democracia não é linchamento, que justiça não se constrói com cadáveres jogados no mangue.
Fui educado sabendo que salvar uma vida, mesmo a de quem errou profundamente, é um ato político dos mais radicais.
Talvez seja esse o verdadeiro desabafo histórico: numa família onde o avô sonhou com a dominação do mundo, foi o genro, socialista e popular, quem ensinou que nenhuma ideia vale mais que a vida humana.
E que às vezes a maior vitória não é ganhar a guerra, mas impedir que ela continue dentro de nós.
Gratidão eterna, meu pai, minha mãe, meus irmãos!
Marcelo Martins é jornalista e cronista



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