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Trump, a volta ao passado

  • 23 de jan.
  • 3 min de leitura

Lino Resende


A tentativa de desfazer o multilateralismo que marcou o período pós-Guerra Fria ganhou forma concreta durante a presidência de Donald Trump entre 2017 e 2021. Não foi apenas um discurso. Houve atos mensuráveis: a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris sobre o clima, a imposição de tarifas comerciais em larga escala, o enfraquecimento deliberado da Organização Mundial do Comércio e a revisão de padrões ambientais e industriais, especialmente no setor automotivo. Em conjunto, essas decisões ajudam a entender a ideia de “uma volta ao passado” — não como metáfora vaga, mas como opção política com custos claros.


No comércio internacional, o governo Trump impôs tarifas sobre cerca de US$ 360 bilhões em importações, sobretudo da China. Estudos do Federal Reserve e de universidades americanas indicaram que essas tarifas elevaram o custo de vida nos Estados Unidos, com impacto estimado entre US$ 700 e US$ 1.000 por família ao ano, sem produzir o prometido retorno maciço de empregos industriais. A participação da indústria manufatureira no emprego americano continuou em torno de 8% a 9%, patamar semelhante ao de antes das tarifas. Ao mesmo tempo, aliados históricos foram tratados como adversários comerciais, o que enfraqueceu mecanismos multilaterais criados justamente para evitar disputas bilaterais e guerras comerciais.


No campo ambiental e tecnológico, o contraste com tendências globais foi ainda mais evidente. Enquanto Europa e China aceleravam políticas de transição energética, os Estados Unidos sob Trump flexibilizaram padrões de eficiência de combustível e emissões para automóveis, revertendo metas que previam ganhos graduais até meados da década de 2020. Na prática, isso significou apostar mais uma vez em veículos maiores e mais dependentes de combustíveis fósseis. Os números mostram o descompasso: as vendas globais de veículos elétricos saltaram de cerca de 1 milhão em 2017 para mais de 10 milhões em 2022, impulsionadas por incentivos públicos e regulações ambientais. Os Estados Unidos cresceram, mas ficaram atrás de China e União Europeia em participação relativa e em investimentos coordenados.


A saída do Acordo de Paris simbolizou esse movimento de recuo. À época, os Estados Unidos respondiam por cerca de 15% das emissões globais de gases de efeito estufa. Relatórios científicos indicaram que o abandono das metas climáticas dificultou o cumprimento dos objetivos globais de limitar o aquecimento e reduziu a credibilidade americana em negociações internacionais. Empresas e estados americanos tentaram preencher o vácuo, mas a ausência de coordenação federal teve efeitos reais sobre investimentos de longo prazo.


Diante desse conjunto de ações, é legítimo afirmar que houve um retorno ao passado? Em termos políticos e industriais, sim. As medidas privilegiaram soluções nacionais, setores tradicionais e tecnologias maduras, mesmo quando dados de mercado e de ciência apontavam para outra direção. Não se tratou de nostalgia, mas de uma aposta consciente de que seria possível “virar a roda da história”, reindustrializar o país e conter transformações tecnológicas globais por meio de barreiras e desregulação seletiva.


O impacto para o mundo foi a fragmentação. Cadeias globais de valor tornaram-se mais caras e menos previsíveis. Para o Ocidente, especialmente Europa e América do Norte, houve um desalinhamento estratégico que abriu espaço para a China ocupar posições de liderança em áreas como energia limpa e baterias. Para os Estados Unidos, o resultado foi ambíguo: algum ganho político interno de curto prazo, mas perda de influência e atraso relativo em setores que concentrarão investimentos e empregos nas próximas décadas.


A experiência sugere que abandonar novas tecnologias para readotar antigas não é, na prática, sustentável. Mercados globais, custos de produção e a própria física das mudanças climáticas impõem limites claros. Pode-se atrasar tendências, mas não eliminá-las. A “volta ao passado”, quando testada, mostrou-se mais como um freio temporário do que como um caminho viável para o futuro.


Lino Resende é jornalista, escritor e mestre em História Política pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes)

 
 
 

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